arnaldo_top

Ruído, por Arnaldo Bassoli.

De repente o universo é tensão. O som fala de fora, o silêncio fala de dentro; mas há uma fala não compreendida, um significado não compartilhado, um caminho não cartografado, que me invade agora e não sei o que fazer. Uma floresta virgem, que surge, ameaçadora, mostrando a força da natureza que eu preferiria não ver. Onde está o amor nesta vida, agora que esse ruído ao mesmo tempo sutil e avassalador insiste em querer arrebentar-me os tímpanos? Conflito. Faço isto ou não faço? Não há solução. Há?

Quanto mais forço para fazer prevalecer as idéias pré-concebidas, mais elas se revelam inúteis. Mergulhei em um mar mais profundo do que imaginava, e agora insisto em nadar na superfície… conflito. Ruído. Aferro-me àquilo que já conheço, e vejo-me puxando cada vez mais as pontas do nó do barbante. Assim ficará cada vez mais difícil desatá-lo.

Tudo deveria ser mais fácil… mas por que você não faz assim, ou assado, dizem os amigos? Palpites. Ruído. Regras contra outras regras; passado contra passado. Falta a escuta, falta o espaço interior, e recorro desesperadamente ao que já sei. O passado, no entanto — é claro — não dá conta do presente. O presente é MUITO mais complexo e rico, mas insisto em querer simplificações. Ruído. Conflito. Medo. Sofrimento.

Quero terminar de atravessar esta ponte — já estou no meio dela. Já vejo o outro lado, e já abandonei aquele em que estava. Mas olho para baixo e vejo: é tão alto! Deus, que vertigem, que medo, que pânico! Sigo ou volto? Se sigo, não tenho mais o lado de cá; se volto, não terei o lado de lá… o que faço? o que é melhor? o que é pior? mas está tão alto… não agüento mais… preciso fazer alguma coisa… mas se sigo, não tenho mais o lado de cá; se volto, não terei o lado de lá… o que faço? o que é melhor? o que é pior? mas está tão alto… não agüento mais… preciso fazer alguma coisa… mas se…

Esse discos riscados que conheço desde sempre, a mente no comando, não vejo mais deus nem luz, não sei mais o que é a liberdade nem a vida. Não sei o rumo. Medo. Conflito. Ruído. Medo, medo, medo, medo, medo. Vivo desta maneira, agora. Meu corpo se encolheu, minha respiração se encurtou. Vejo que os outros não me compreendem. Por que deus é tão ruim? por que a vida é assim? por que todos fazem coisas e eu não? por que a minha cabeça não pára de gritar? por que estou tão irritado? o que é mesmo que devo fazer? mas nem sei se devo fazer alguma coisa… minha cabeça não pára de gritar!

O som fala, o silêncio fala. O ruído me diz que algo não está sendo visto como é. Diz-me, no conflito que o manifesta, que há algo que preciso perceber e que ainda não estou percebendo. Diz-me que preciso participar com uma atenção muito presente, que preciso me envolver, sair do automatismo. Se eu perceber como o nó está formado, consigo desatá-lo. Mas por que não o faço? Porque não consigo olhar para dentro de mim, de tanto medo que tenho. Medo atávico: nele, depositam-se todos os medos dos que vieram antes de mim, em minha família, em minha linhagem, na humanidade. Sou o protagonista atual dessa batalha épica do herói, da busca pelo autoconhecimento. Ou venço, ou condeno meus descendentes a passar pela mesma prova. Preciso compreender que o ruído é a provocação para que eu instaure o som. Ou o silêncio. Aí, tudo estará bem, e estarei no Presente, esse eterno e sempre novo Presente. Só há uma saída: consciência. Tomo para nós as palavras de Jean-Yves Leloup: “Só aquilo que for consciente será salvo”.

 

Arnaldo Bassoli, 56, é psicoterapeuta de indivíduos e grupos, adultos e adolescentes, com especializações em Cinesiologia Psicológica e Gestalt- Terapia. É fundador da Escola de Diálogo de São Paulo, onde conduz aulas, seminários e oficinas, e trabalha com organizações de todos os setores. Pratica meditação e estuda o conhecimento tradicional, principalmente do budismo e da mística cristã. Confira seu site aqui.

Comentários