cimatica

Ruído, por Malu e Isabela.

Fora de Mim pediu a Malu e a Isabella, duas escritoras talentosas, que assistissem este vídeo sobre cimática e que escrevessem a partir do ruído que ele provocasse no imaginário delas.

Não tropece nas notas, por Malu Ferreira Alves.

Pare de cair!
uma mulher, varrendo a calçada, dá esse comando para uma árvore que derruba folhas mortas. A árvore  lhe ofereceu frutos e sombra e se cala. E, agora, em pleno outono, ouve essa ordem. Como se pudéssemos dar um comando único para que todas as folhas caíssem de uma só vez. Pouco trabalho para varrer folhas secas. O outono enxerga nosso corpo e não o comandamos conscientemente. Assim pensamos.
Não o enxergamos?
o corpo ou o outono? Seria uma pergunta absurda já que estamos nele e usamos a linguagem. A letra é um corpo e a ampulheta a figura de um corpo ou da palavra. A alma está no corpo , inteiramente contida em sua malha. A areia habita o corpo enquanto o tempo escorre.
Corpo e alma?
Como dois acrobatas entrelaçados pelo som que a boca emite. Os pensamentos gritam. O símbolo do corpo pode ser uma faca. A palavra lâmina ali montada. Do que são feitas as letras que você pronuncia?
Os ruídos que você provoca enquanto existe?
Os grunhidos?
cansados do saudoso e perdido paraíso mitológico e dos desenhos primitivos nas cavernas. O som ampliado das cavernas sendo arrastado para uma nova sinfonia. O medo guinchando nas savanas descansa numa cama king- size.
Não tememos mais?
a modernidade, as experiências estéticas, eróticas, oníricas, patológicas, curativas boiam num mesmo líquido, o ectoplasma de uma mesma célula que não enxergamos. O corpo destruído pelos ruídos que começam na alma desafinada. E esse medo que nos salva.
Emudeça o homem
e quase tudo morrerá? O sapiens está num altar mas não sabe se é o santo. Criar ou destruir. A morte pode se iniciar com um comando verbal. Uma carnificina pode ocorrer com o apoio de uma assinatura que encobre uma ordem. O cérebro sempre está lá enquanto uma letra se transforma num som. O cérebro cria o som. Mesmo sem as cordas vocais existe uma intenção e um olhar. Não há como se eximir.
Sua letra é assassina?
Quanta morte em nossos corpos, quantas palavras inadequadas. O verbo é seu. Você conjuga o tempo e a música. O verbo de todos –  são como abelhas zunindo um mesmo enxame. Que som você quer fazer?
A evolução está aí se exibindo
na sua cara. A areia habita o corpo enquanto o tempo escorre. Uma onda sonora em compassos. O tecido doce que se forma. Pausas colocadas no caminho de uma transformação dirigida. As flautas dos anjos. Revelações e mistérios. Acorde para a harmonia. Novas frequências vibratórias esperam. Legível o olhar para o emaranhado delicioso das formas. Toda a harmonia possível.

Maria de Lourdes Ferreira Alves é escritora e tem um livro publicado, Velho é o espelho, pelo Ateliê Editorial.

 

 

 

 

 

 O que faz alguém se aventurar, por Isabela Quintella.

Abaixo bem, à esquerda, estão agachados o explorador Britânico e seus companheiros. Observam a serpente. O fotógrafo da equipe  no alto da ruína mira no bote do animal. Ele é um descobridor; quer encontrar a sedução que levou Eva ao pecado, paraíso. Não precisa de teorias ou conceitos, mas de uma fotografia. Os sapatos …passo em falso e o abismo anunciou o luto espalhado por gritos. Na China o azul é a cor do luto. O barulho foi cessando, fez-se silêncio. Todos correram para localizar o corpo, mas o vazio era mais forte. Tão forte que a visão  se perdeu no céu Chinês.
Um sinuoso chocalho deslizava escamas. O explorador e os companheiros não pensaram na cobra, esqueceram que estamos a todo instante expostos ao bem e o mal. Encurralados. Alguém começou a cantar, mas ninguém tinha coragem de tirar os olhos da serpente. Alguém que cantava diante do perigo. Quem consegue cantar? A inércia obedece ao medo. A cobra faz o que quer, ela é o agora, mas o fotógrafo não entendeu e tropeçou nos próprios pés. O que faz alguém se aventurar? A vida é traiçoeira, mas para ele certamente não. Confiava a ponto de arriscá-la. Ele queria uma foto do imaginário. Que missão interminável!
Ninguém acredita no inesperado; Todos presos no agora… Olhe em volta, abra a janela, só o que importa é o imediato. Alguém canta alto. A cobra some. O explorador oferece uma xícara de chá para os companheiros que estão perplexos, hipnotizados pela realidade contínua  e não escutam a voz. O fotógrafo canta alto. Na hora da queda foi salvo por um platô. É preciso entender que o imprevisível lhe pede algo  escondido nos vitrais de paisagem e infinito.

Isabela Quintella é escritora, formada em Publicidade  pela UFRJ.

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