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Cortazar, cronópios e famas, por Carolina Rubira

Nesta entrevista Cortazar conta como surgiram os cronópios, famas e esperanças.

 

 

Um conto sempre conta duas histórias, uma que se mostra e outra que está oculta sob a primeira: está em Poe a defesa da narrativa dupla, que é reafirmada por Ricardo Piglia e defendida por Julio Cortázar: Essa visão sobre a dualidade permeia toda a obra de Julio Cortázar, aparecendo de forma tímida em seu primeiro livro “La otra orilla” (1937-1945), muito próxima da construção do conto de Poe, e firmando-se nos livros seguintes do autor gerando um universo múltiplo que se estende aos personagens, ao espaço e ao tempo em sua narrativa.
Essa dualidade é responsável pela tensão presente nos contos, elemento também importante na construção da narrativa de Cortázar, resultante, entre outros fatores, da convivência entre opostos e mostrando-se essencialmente na relação entre o mundo ordinário e o mundo fantástico.
Em ‘Historias de Cronopios y de Famas’ (1962) o caráter dual e múltiplo mostram-se não só na forma dos Cronópios e dos Famas, mas também num apelo do autor para um tratamento mais atento em relação ao mundo ordinário e às atividades condicionadas que praticamos dentro dele: Cortázar nos ensina a subir uma escada, a chorar, a cantar… O autor abre nossos olhos para a compreensão de que o mundo fantástico esconde-se sob a pele de condicionamentos que criamos para nos relacionar comodamente com o ordinário; propondo que talvez possamos desenvolver um olhar de Cronopio – mais livre, e menos metódico, como seria um Fama – para notar que o mundo comum – assim como a narrativa dupla defendida por ele, Ricardo Piglia e Poe – também conta uma história oculta. Essa consciência propõe ao leitor a possibilidade não de construir mundos fantásticos mas de descobrir em si mesmo olhos capazes de enxergar o que de fantástico há no mundo que nos é dado cotidianamente.
A multiplicidade na obra de Cortázar – particularmente em ‘Historias de Cronopios y de Famas’, pelo modo como o livro especifica os fragmentos que compõem essa multiplicidade – parece gerar uma tensão dentro da obra, entre a obra e o leitor, entre o leitor e mundo e, finalmente entre o leitor e o próprio leitor, que pode encontrar em si algo de Fama e algo de Cronópio, notando ser parte do universo proposto pela obra, como no conto “La continuidad de los parques”, do livro “Final del Juego”(1956), em que o leitor, personagem do livro, se surpreende na poltrona descrita pelo romance que está lendo.

Se vc quiser ouvir o próprio Cortazar lendo o conto “La continuidad de los parques, clique aqui.

Se quiser ouvir um legítimo cronópio, indicado por Cortázar, Thelonious Monk  clique aqui.

 

Carolina Rubira é estudante de Letras e, há dois anos, vem estudando a obra de Julio Cortázar com ênfase na influência do jazz na narrativa do autor.

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