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INTER-SEXUALIDADES: na cruzada dos novos gêneros, por Stéphane Malysse

 “Tenho uma pele de anjo, mas sou um lobo; tenho uma pele de mulher, mas sou um homem; tenho a pele escura, mas sou branca… Nunca tenho a pele do que eu sou, pois não há exceção à regra, nunca sou o que tenho.” Eugénie Lemoine-Luccioni

Ao entrar no século XXI, os humanos descobrem que tiveram filhos com homens e mulheres de Neandertal (este hominídeo das cavernas extinto) e que o cruzamento ou relacionamento amoroso teria ocorrido 50 mil anos atrás, quando grupos de Homo Sapiens saídos da África chegaram ao Oriente Médio pela primeira vez. A decifração do genoma do Neandertal surpreendeu a comunidade cientifica demonstrando geneticamente as mestiçagens originárias: o cruzamento entre Neandertais e seres humanos. Ao entender que, entre quase 7 bilhões de pessoas vivas em 2010, houvesse 50 milhões de descendente dos Neandertais, os humanos reconsideram a mestiçagem e reconhecem que alguns preconceitos não resistem mais à Ciência.

Ao contrario do esperado pela opinião pública, são os Europeus e os Asiáticos (e não os Africanos) que compartilham hoje, mais genes com os homens de Neandertal; o que coloca definitivamente em xeque as teses racistas do século XX. De fato, nos séculos XX e XXI, a mistura sem precedente das culturas (e dos genes), as diversas mestiçagens e migrações internacionais, as novas visões e ideologias do corpo, do espaço e do tempo, transformam o imaginário da Beleza, seus códigos e suas praticas, de forma inédita na historia da Humanidade.

Para os antropólogos, o corpo do recém-nascido é como um livro em branco, uma ficção cultural (David Le Breton) que cada indivíduo vai atualizar ao relacionar-se com a sua cultura e com os outros, através do que Marcel Mauss chama de imitação prestigiosa.

Através dessa incorporação individual da cultura, cada pessoa constrói à la carte a sua identidade a partir das múltiplas escolhas que deve fazer para integrar-se no seu grupo cultural. Multiplicando as suas escolhas conscientes e imitações inconscientes, o individuo se posiciona em relação à cultura na qual  vai crescer e transforma o seu patrimônio genético em uma constelação de especificidades multifacetadas que o tornam ao mesmo tempo único e múltiplo, já que sua personalidade é fruto de uma interação com os demais. Gestos, conceitos, pensamentos, normas… não estamos sozinhos no nosso corpo.

Hoje, numa sociedade que mostra cada vez mais suas ambições igualitárias, a necessidade de codificação, de afirmação e de apresentação das identidades sexuais se intensifica e se diversifica, tornando obsoleta a simples menção de sexo nas carteiras de identidade. Com a globalização e o fim das diferenças étnicas e nacionais, o gênero se torna o único viés de criação de identidade multiplicando as possibilidades de interações entre o Masculino e o Feminino. A construção da identidade sexual é doravante muito mais complexa e modulável: ser um homem ou uma mulher não significa mais nada em si, pois é a construção de uma androginia personalizada que vai definir a relação de cada individuo com a nova gramática do gênero. Todo corpo contém inúmeros outros corpos virtuais que o indivíduo pode atualizar por meio da manipulação de sua aparência e de seus estados afetivos.

Foto: Nan Goldin

Stéphane Malysse é antropólogo e artista. Doutor em Antropologia Social pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS /Paris). Pesquisador associado do departamento de Antropologia da Goldsmith (Londres). Acabou de lançar seu primeiro livro, Diário Acadêmico pela editora Estação das Letras e Cores (SP, 2008)

http://www.each.usp.br/opuscorpus/

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