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O estado migratório da alma pela poeta Ana Peluso

 

 

 

 

Estranhamente assim, ela mudava seus gostos. De manhã preferia o rosa, à noite o vinho, e de madrugada ainda era possível gostar do lilás. Do roxo. A cor da morte. Do hematoma, da cura. Aos sábados ela sorria, mas nem sempre. Todo mundo à sua volta estava decantado. Era desnecessária. Trocou a cerveja pelo uísque num piscar de olhos. Em outros, os deixou pela soda com rodela de limão, mãos limpas, óculos assíduos. Era multiface. Era uma multidão. No entanto, o seu perfume era sempre o mesmo. Imã, magneto. Uma rodela de batata doce puxando toda a acidez do mundo do meio da sua cara. E ela mentia. Dizia estar tudo bem. Era por fora mais ela do que se fosse outro alguém. Qualquer outro. Desses que têm sempre a mesma opinião, e sempre se coçam do mesmo jeito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ficou feia

depois de roubar a beleza com a data de validade vencida que a amiga comprou no Wal-Mart.

 

 

 

 

 

Efêmero como um passeio de carrossel no parque. Como o gosto do chocolate de maça-do-amor recheada. Como aroma que passa por lembrança. Como a tua visita sempre rápida. Como a troca dos olhares medrosos e o roçar das mãos ingênuas. Como um oi, às vezes, tão indeciso quanto um adeus.  Como a vida que não deixa rastro do azul que foi o céu, visto de baixo, um dia. Como qualquer coisa do mundo quando se está amando.

 

Ana Peluso, São Paulo, ilustradora, escritora, poeta, participou de algumas antologias, não sabe quando lança livro. Tuíta como  @anapeluso, e agrega feeds  aqui)

 

 

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