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Thomas Mann e Visconti – sobre a vida, o tempo e a transitoriedade

Thomas Mann, recebeu o Premio Nobel de  literatura em 1929. Escritor alemão consagrado entre outros livros pelos belíssimos “A Montanha Mágica” e “Morte em Veneza”, lê  numa transmissão de radio de 1950, um pequeno ensaio seu  sobre  transitoriedade.

Não resisti e coloco também  o link do trailler do filme Morte em Veneza, de Luchino Visconti, feito a partir do romance  de Mann. Ao meu ver uma obra prima, onde o confronto com impermanência se apresenta como um  elemento  fundamental.

 

 

Aqui Thomas Mann e seu ensaio,  o áudio em inglês  e o texto em inglês e português.

O texto e a transmissão foram retirados do site          http://thisibelieve.org/

Para ouvir o audio, clique aqui    TIB1950_Mann

 

Life Grows in the Soil of Time

Thomas Mann

What I believe, what I value most, is transitoriness.

But is not transitoriness—the perishableness of life—something very sad? No! It is the very soul of existence. It imparts value, dignity, interest to life. Transitoriness creates time—and “time is the essence.” Potentially at least, time is the supreme, most useful gift.

Time is related to—yes, identical with—everything creative and active, every progress toward a higher goal.

Without transitoriness, without beginning or end, birth or death, there is no time, either. Timelessness—in the sense of time never ending, never beginning—is a stagnant nothing. It is absolutely uninteresting.

Life is possessed by tremendous tenacity. Even so its presence remains conditional, and as it had a beginning, so it will have an end. I believe that life, just for this reason, is exceedingly enhanced in value, in charm.

One of the most important characteristics distinguishing man from all other forms of nature is his knowledge of transitoriness, of beginning and end, and therefore of the gift of time.

In man, transitory life attains its peak of animation, of soul power, so to speak. This does not mean man alone would have a soul. Soul quality pervades all beings. But man’s soul is most awake in his knowledge of the interchangeability of the terms “existence” and “transitoriness.”

To man, time is given like a piece of land, as it were, entrusted to him for faithful tilling; a space in which to strive incessantly, achieve self-realization, move onward and upward. Yes, with the aid of time, man becomes capable of wresting the immortal from the mortal.

Deep down, I believe—and deem such belief natural to every human soul—that in the universe prime significance must be attributed to this earth of ours. Deep down, I believe that creation of the universe out of nothingness and of life out of inorganic state ultimately aimed at the creation of man. I believe that man is meant as a great experiment whose possible failure of man’s own guilt would be paramount to the failure of creation itself.

Whether this belief be true or not, man would be well-advised if he behaved as though it were.

 

 

A vida cresce no solo do tempo


Aquilo que creio , que mais dou valor é na transitoriedade. No entanto, não é a transitoriedade – a perecibilidade da vida – algo muito triste? Não! Ë a verdadeira alma da existência.
Ela concede à vida valor, dignidade e interesse. A transitoriedade cria o tempo – e” tempo é a essência”. Potencialmente ao menos, o tempo é a suprema e mais proveitosa dádiva.
O tempo está relacionado a – e sim, idêntico a- toda a ação e criação, cada progresso em direção a um objetivo maior.
Sem a transitoriedade, sem começo e fim, nascimento e morte, tampouco o tempo existe. A atemporalidade – no sentido do tempo nunca se extinguir, nunca começar – é um nada estagnante. É absolutamente desinteressante.
A vida possui tremenda tenacidade. Mesmo assim, sua presença permanece condicional, e como teve um início também terá um fim.
Eu acredito que a vida, só por isso, é excessivamente engrandecida em valor, em charme.
Uma das mais importantes características que distinguem o homem de todas as outras formas da natureza é seu conhecimento da transitoriedade, do poder da alma, por assim dizer. Isto não significa que o homem por si só teria uma alma. A qualidade da alma permeia todos os seres. Mas a alma humana está mais desperta no seu conhecimento da intercambialidade dos termos existência e transitoriedade.
Para o homem, o tempo é dado como um pedaço de terra, por assim dizer, confiada a ele para fiel cultivo, um espaço para empenhar-se incessantemente, alcançar a auto-realização, mover-se para frente e para cima.Sim, com a ajuda do tempo o homem se torna capaz de extrair o imortal do mortal.
No fundo eu acredito – e julgo tal crença natural a cada alma humana- que no universo, a significância primordial deve ser atribuída a esta nossa terra. No fundo, eu acredito que a criação do universo que vem  do nada e da vida saindo do estado inorgânico, visou fundamentalmente à criação do homem. Eu creio que o homem é tido como um grande experimento cujo possível fracasso de sua própria culpa seria essencial para o fracasso da criação em si.
Sendo esta crença  verdadeira ou não, seria aconselhável que  o homem se portasse como se assim fosse.

( tradução gentileza  de Ciça Godoy)

 

 

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