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Moondog e a música do vídeo, por Filipe Franco

 

Essa edição do Fora de Mim ficou carente do costumeiro vídeo de entrevista. Melhor momento pra tratar desse enigma cultural, o homem por trás da música tema do vídeo.

 

 

A música faz parte de um dos 18 álbuns (sem mencionar Eps e singles) do compositor, músico, poeta, cosmologista e inventor de instrumentos musicais Luis Thomas Hardin, conhecido, ou pouco conhecido, como Moondog.

O trabalho é extenso, mas as notas são poucas, meticulosamente encaixadas e cada uma com um propósito certeiro, matador. Grandes compositores modernos como Philip Glass e Steve Reich o apontaram como fundador do conceito de minimalismo, ao que Moondog responde modesto “Bach já fazia minimalismo em suas fugas, então o que há de novo?”

Cego desde os 17 anos, por conta de um acidente com dinamites, o até então jovem caipira que morava em uma rústica cabana de madeira entre tribos nativas de Wyoming, decide estudar música na escola para cegos de Iowa, onde passou a escrever lindas peças (em braile).

Perto dos 30 anos, Moondog se muda para as ruas de Nova Iorque. Se estaciona em uma esquina da 6ª avenida (mais tarde batizada pelos moradores de Moondog’s corner) e lá  dá início a um cotidiano urbano, tocando suas excêntricas invenções e recitando poesias.

Seu traje, feito por ele mesmo, acompanhava normalmente um capacete viking, uma lança, um manto e uma calça de couro animal. Tamanha excentricidade que faria Moondog perder contatos prestigiosos decisivos para sua popularidade mundial, apesar de fazer fortes amizades com grandes nomes do jazz como Charlie Parker.

O Viking da 6ª avenida intrigava os transeuntes.

Moondog via música em tudo, e não esconde suas origens e filosofias no disco Moondog 1956. Entre as músicas, podemos ouvir sua esposa cantando para sua filha de pouco mais de um mês chorando na faixa 2 (Lullaby), um quinteto de cordas e sapos na faixa 6 (Frog Bog), um solo de piano emblemático na faixa 7 (To a Sea Horse), e até uma conversa ao som do tráfego das ruas para terminar o disco. A maioria das músicas são acompanhadas por sua invenção, a Trimba, um instrumento percussivo triangular que assina grandes músicas com seu timbre muito particular até o fim de sua carreira.

A partir daí, surgiram trabalhos memoráveis de Moondog. O álbum Moondog 1969 + Moondog 2 consiste originalmente em dois discos separados. O primeiro em brilhantes composições orquestrais ( faixa 1 a 8 ) e o segundo em cânones letrados muito amigáveis, que são intuitivamente comparáveis às fugas de Bach. Esses cânones são formados a partir de um tema cantado por uma primeira voz, com sucessivas  vozes entrando  uma por vez, retomando esse tema enquanto a primeira continua. É uma espécie de corrida circular e infinita em que uma voz nunca alcança a outra (faixa 9 a 34). Para terminar, uma obra prima que sintetiza a sensibilidade da música de Moondog, uma peça composta para harpa Troubadour (uma espécie de harpa paraguaia sem pedais) na faixa 34 (Pastoral).

Moondog também tem disco de canções (H’art Songs), de viagens cósmicas (Elpmas), de saxofones (Sax Pax For a Sax), e uma coleção de versos. Seguia um Calendário Comum criado por ele, que tinha seu primeiro ano em 8000 AC com o surgimento da agricultura. Ou seja, a receita para unir todas as raças e credos em um único calendário seria só acrescentar oito mil anos ao calendário cristão e dar uma mexidinha. Como ele explica o calendário?  Com um cânone.

Moondog morreu em 8 de setembro de 9999.

 

Filipe Franco é videomaker e apaixonado por música. Procura viver em paz em São Paulo com sua esposa e uma colônia japonesa.

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