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No Escuro, por Maria Lyra e Elis Feldman

Antes de entrar na sala escura, a perspectiva de encarar um breu disforme, nos causava nervosismo e ansiedade. Na escuridão cabem todas as nossas fantasias e medos mais secretos. Não era exatamente um consolo o fato de que quem nos guiaria no jantar também não enxergava, afinal  os garçons do restaurante eram todos  cegos.

Sentimos um prazer inesperado, a sensualidade de comer com as mãos, os  aromas e não mais a visão eram os mensageiros do que estava por vir à boca…

Como seria o salão de jantar? Podíamos imaginá-lo como quiséssemos. E as pessoas das quais apenas escutávamos a voz, sentíamos o cheiro ou roçávamos sem querer os dedos? Imagens sinestésicas se criaram na nossa mente.

Saímos andando pelas ruas escuras e vazias de Paris confabulando e vibrando com a experiência que permitiu descobrir tantas sensações novas dentro de nós. Tal como Alice, havíamos encontrado um lugar secreto que seguia outras leis! Estava germinado ali o grão do que logo se tornaria o nosso Ateliê No Escuro, um projeto que se propõem a disseminar esta experiência sensorial que tanto nos marcou!

Passamos a vendar pessoas e explorar este país das maravilhas. Vendadas, as pessoas curiosamente comem menos. Estão mais atentas a tudo que envolve o ato, antes automático, de comer. Com os sabores, texturas e aromas potencializados, é como se o alimento ganhasse uma outra dimensão. Esta desconstrução possibilita que comensais adorem, por exemplo, comer a abobrinha ou o chuchu que de olhos desvendados não gostavam nem um pouco. Alguns percebem seu corpo melhor, sentem se sua coluna está desalinhada e o quanto a cabeça de fato pesa quando não temos o olhar para estruturá-la verticalmente. Alguns ficam menos tímidos, outros mais, na falta do olhar do outro lhes balizando. Alguns sentem o impulso de dançar, outros preferem o silêncio, alguns falam sem parar.

Atravessando a fronteira do reinado do olhar, caminhamos rumo ao desconhecido.

O ato de excluir momentaneamente um sentido abre espaço para outros,  e, como  nossa cultura é muito pautada pela imagem,  tirar a visão desestabiliza o nosso modo usual de funcionar, muitas vezes mecânico e panóptico. Isso possibilita um trabalho com os sentidos  menos estimulados e, ao final, com o próprio olhar que pode ser ressignificado.

Ao desorganizar nosso esquema sensorial criamos novas sinapses, novas possibilidades. Sabe quando reparamos em uma árvore que na verdade sempre esteve ali, mas parece que só naquele momento começamos a enxergá-la? Assim são as potencialidades da nossa percepção, que estão ali, mas ainda não fazem parte da nossa paisagem cotidiana.

Acreditamos que estas experiências são capazes não só de ampliar um repertório sensorial, mas ressignificar cada um na sua relação consigo mesmo e com o ambiente ao seu redor.

“Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma. Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo” – Hermann Hesse

 

O Ateliê No Escuro nasceu em janeiro de 2008, a partir de uma visita ao Dans Le Noir em Paris. Foi fundado pelas psicólogas Elis Feldman e Maria Lyra, formadas pela PUC-SP no mesmo ano. Desde então elas realizam vivências sensoriais em restaurantes, espaços de eventos e na casa das pessoas, para o público aberto ou corporativo. Sua equipe é composta por psicólogos, uma terapeuta corporal e alguns músicos. Para mais informações acesse:  www.atelienoescuro.com.br.

 

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