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“Cinema, sonho, memória: uma coisa só?” Por José Geraldo Couto

O cinema e a memória se entrelaçam de inúmeras maneiras.

Ao registrar em imagem (e eventualmente também em som) uma determinada ação, um determinado espaço, um determinado ser, não importa se num documentário ou num filme de ficção, o cinema ajuda objetivamente a preservar a memória, a derrotar o esquecimento.

Num nível íntimo e prosaico, o cinema se vincula à memória afetiva de cada espectador. Filmes que nos causaram impacto ou encantamento quando vistos pela primeira vez tendem a evocar aquele mesmo momento primordial, aquele mesmo estado de espírito, toda vez que os revemos ou relembramos. Um nos remeterá a infância, outro fará aflorar a presença de um amor, de uma amizade, de uma descoberta.

Mas cinema e memória estão ligados num sentido mais profundo. Muita gente (em especial Edgard Morin em O cinema ou o homem imaginário) já mostrou as similitudes entre a linguagem cinematográfica e a linguagem onírica, em termos de construção narrativa. Assim como o sonho, um filme comprime e distende livremente o tempo, permite deslocamentos ilimitados no espaço, bem como mudanças bruscas de ponto de vista. Em ambos, as situações mais triviais podem ser investidas de intensa emoção.

Ora, a memória é uma elaboração narrativa com o mesmo caráter dúctil, maleável, modular. Ela se constrói em sequências mais ou menos autônomas, que se juntam e combinam de acordo com o desejo daquele que recorda.

Inúmeros cineastas, assim como inúmeros escritores, buscaram expressar de algum modo a matéria fugidia, inapreensível, da memória. Alguns exemplos óbvios de filmes que explicitam essa busca são Cidadão Kane, Rebecca e as várias tentativas, todas mais ou menos frustradas, de adaptar Em busca do tempo perdido, de Proust – a obra literária máxima em torno do tema.

Mas, a meu ver, os cineastas de primeiro time que mais se dedicaram a essa tarefa impossível, e que mais se aproximaram do êxito, foram Alain Resnais e Federico Fellini, por vias, temas e estilos totalmente diversos. Boa parte da cinematografia desses dois gigantes mergulha na memória e seus desvãos, Resnais por um viés mais lógico-analítico, Fellini de modo visceral e intuitivo. (Não que não haja intuição em Resnais, ou inteligência lógica em Fellini, mas só para marcar as linhas gerais.)

E, dentro da obra dos dois, os filmes que talvez tenham mergulhado mais fundo no poço da memória são Hiroshima meu amor

e Amarcord  

 

Obras-primas literalmente memoráveis.

 

José Geraldo Couto é jornalista, crítico de cinema e tradutor. Escreveu os livros André Breton – A transparência do sonho (Brasiliense), Brasil: Anos 60 (Ática), Florianópolis (Publifolha) e Futebol brasileiro hoje (Publifolha). Mantém uma coluna de cinema no blog do Instituto Moreira Salles: http://blogdoims.uol.com.br/jose-geraldo-couto-no-cinema/.

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