Como os figos secam no quintal por Luciana Gerbovic

“Como os figos secam no quintal ?” por Luciana Gerbovic

Eu vi seus olhos perderem a voz. Encovados e opacos da cor das uvas amassadas com seus pequenos pés na ilha de Korcula. Viveram além do permitido pela memória. Ninguém brinca com o tempo impunemente. Não sei se foi essa a lição. Não sei se existe uma lição. Olhos que não lacrimejavam por mais ninguém. Você sabe quem eu sou? Se eu saí de alguém que saiu de você você está em mim e não sabe quem somos? Nem por um som. Kako si baba dobro? Foi você quem me ensinou essas palavras naquelas tardes de sábado em que você se juntava com sua mãe e suas irmãs numa cozinha um oceano distante do que um dia chamaram de lar. Um lar invadido pela guerra. Uma confraria de mulheres narigudas compartilhando segredos alegres numa língua não revelada às crianças ao redor do pão e do vinho. Não lacrimejavam nem por um toque. Quando a mais velha falava em seu código indecifrável eu só me acalmava quando você segurava meus braços assim ó e dizia que ela só queria saber se eu era uma boa aluna. Eu balançava a cabeça num sim e você me liberava até o portão. Gostava das risadas que o vento trazia da cozinha até a rua,  acompanhadas do perfume das roseiras e das pimenteiras capturado no meio do caminho. Nunca desvendei as confidências trocadas.

 

Não sei nem contar até dez no seu idioma poético aos meus ouvidos. Você não me disse qual o gosto do pêssego nascido na terra que te germinou num armistício. Seu nome Paz e Glória. Nem me falou do sabor do sal adriático. Você não me explicou como os figos secavam no quintal e não descreveu as cores das pedras pisadas por esses pés transformados em gravetos. Grito pela herança que me foi furtada pelo tempo. Levada para um espaço fechado a qualquer investigador. Tenho coisas que não quero. Sua casa e suas jóias. A penteadeira que viu seus cabelos branquearem antes das rugas comerem seu viço. O tique-taque do despertador que guiava meu sono misturado com sua reza na língua encantada das mulheres narigudas. A mala de couro recheada de fotos de pessoas que eu trago no sangue e não consigo imaginar coloridas.

 

Quero suas memórias. Essas que ficaram enterradas com os pêssegos e o sal e os figos e as pedras e as confidências das narigudas em alguma curva do seu cérebro entre a hipófise e o córtex.


 

 

 

 

 

Luciana Gerbovic – advogada, leitora e escritora (ou escrevinhadora?)

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