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O pretérito imperfeito por Elza Tamas

Minha memória mais remota inclui duas chupetas que se alternam na minha boca, uma salada de alface temperada com açúcar e um desconforto, daquele que anuncia que alguma coisa muito grave está por acontecer. Tenho três anos de idade.

As lembranças se confundem com os relatos orais: noite de trovoadas, o pau da cortina caindo sobre a cabeça da minha mãe bem na hora do parto, meu avô de chinelos caminhando pelo quintal para enterrar a placenta no jardim. Uma coisa de cara amassada no meu colo que eu não tardei em descobrir que se tratava do meu irmãozinho, o primeiro banho, a família reunida e feliz. Memórias em preto e branco como são os registros fotográficos da época.

Minha mãe garante que eu estava na casa da outra avó, a paterna, e que seguramente não comi alface com açúcar, nem presenciei o parto, nem o desastre da cortina, mas meu desatino mnêmico insiste em me colocar na situação, espreitando. Inventei uma cortina florida, um rosto de dor, o alvoroço no quarto e até o choro do bebê nascendo.

Falsa memória. Um relato aqui, uma lembrança ali, fotos e um tanto de imaginação no meio.

Um amigo justificou uma série de fracassos em sua vida, em função de um episódio bem traumático na infância. Uma vez em família, se encheu de coragem para falar sobre o assunto e pasmem!, o tal fato tinha acontecido, mas não com ele e sim com seu primo.

Em termos psíquicos tanto faz se o registro é fabricado ou real, porque real é o que vivemos subjetivamente. Não temos um olhar ingênuo sobre a realidade, ela nunca nos é original. Nossos filtros pessoais criam e retroalimentam nosso rastro de memória, o que chamamos de nossa história, nossa identidade.

Somos na natureza os únicos seres autobiográficos. Narramos e nos narramos incessantemente, criando a sensação de uma experiência coerente, contínua e de tempos distintos.

Meu pai não se conta mais desta forma. Para ele, duas cidades distintas podem atravessar a  mesma sala de jantar, duas pessoas diferentes podem ocupar o mesmo corpo e  vinte, trinta anos se pulverizam da sua cronologia depois de um passeio no parque. Fenômenos observáveis apenas no mundo onírico. Acho que meu pai vive na 4ª. dimensão.

 

(e seus olhos, não eram quase verdes? Minhas mãos se lembram de uma cicatriz grande no seu corpo – elas não sabem onde, desculpe, jurei nunca esquecer a data do seu aniversário, o tempo engoliu minhas promessas. Esqueci, porque há muito tempo parei de nos relatar.)

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