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“O segredo do sucesso” por Paulo Markun

Sempre achei que a memória só piorasse com a idade. A minha, particularmente, é como aquelas câmeras polaroid (alguém se lembra?): no instante seguinte, como num passe de mágica, oferece uma foto nítida, colorida e brilhante. Mas se você guarda o retrato na gaveta e o apanha meses ou anos mais tarde, terá, quando muito, uma imagem esmaecida, pálida, quase incompreensível.

Foi, portanto, com alguma surpresa que fiquei sabendo que cientistas da Universidade Saarland na Alemanha acabam de demonstrar que os adultos tem maior capacidade de identificar a origem das memórias. Do ponto de vista prático, o trabalho só serve para colocar em dúvida o depoimento de crianças nos tribunais, por exemplo, já que eles seriam mais sensíveis aos erros e à manipulação, tomando a nuvem por Juno, como Ixião, o mitológico pai dos centauros.

No território não menos fantástico das minhas lembranças, elas agora deram para aparecer emboladas como um spaghetti cozido em pouca água – e não há garfo que as desembole. Tanto surge o primeiro pedido de namoro – cruelmente rejeitado 24 horas mais tarde por uma certa

Edna (lembro o sobrenome, mas omito propositalmente), como os afluentes da margem direita do Amazonas, decorados no tempo do vestibular: Javari, Juruá, Purus, Madeira, Tapajós e Xingu. Quer os da esquerda? Içá, Japurá, Negro, Trombetas, Paru e Jari.

Na bagunça desse armário embutido, como diria o Chico Buarque, surgem, em câmera lenta, a descida da rampa da minha casa sobre a bicicleta com freio de pé que não soube manejar, o portão de ferro que barrou a viagem graças a meu nariz, a primeira trombada de carro, numa noite chuvosa em que pneus carecas não deram conta do recado, a folha de papel almaço em que tive de descrever o temperamento de um amigo preso.

Há boas recordações, é claro: o prazer de fisgar um peixe grande em alto mar, um pôr do sol no mar do Caribe ou em Santo Antônio de Lisboa, o espanto dos filhos ante o vulcão de areia que aprendi com meu pai, um jantar-supresa em Brasília…Outras lembranças ficam num território duvidoso, do bom que é ruim ou vice-versa. Como a amidalite que me tirava da escola ou a rajada de vento que fazia voar – e pender assustadoramente o pequeno veleiro em que me imaginava um novo Amyr Klink.

Entre acidentes e incidentes, brilha uma noite ao relento em Casemiro de Abreu, no Estado do Rio.

Puxando pela memória, lembro da multidão encarapitada no morro afastado da cidade, olhando o céu cheio de estrelas, em busca de um disco voador – e a luz dos isqueiros acendendo cigarros logo passados de mão em mão.

Fui buscar o registro racional e imutável daquela noite num recorte amarelado e encontrei isto:


PM executa “Operação Ufo” nas estradasMilhares à espera do “disco” hoje em Casimiro de AbreuReunidas na Fazenda Nossa Senhora da Conceição, em Casimiro de Abreu, a 135 quilômetros do Rio, milhares de pessoas de várias regiões do País aguardam a descida hoje, às 5h20m da madrugada, de um disco voador, anunciado por Edílcio Barbosa, que se diz “mensageiro de Júpiter”.Junto à BR – 101, multiplicam-se os ambulantes e barracas que vendem frutas, refrigerantes, sanduíches, maçãs-do-amor e bugigangas – bebidas alcoólicas foram proibidas pelo delegado Heralmir Ramirez.Foi constituída uma “Comissão de Recepção” para receber os seres extraterrenos, presidida por Edílcio Barbosa, que entretanto está desaparecido há dois dias. Membros da Comissão afirmam que ele está “em retiro”, concentrando-se para a comunicação com os tripulantes da nave. Ele não tem hora para reaparecer.

A fazenda e suas imediações estava ontem ocupada por soldados da PM – um reforço veio de Magé – jornalistas, membros de um grupo “Fios 8 de março”, que organizou a recepção ao disco, centenas de vendedores e uma multidão de curiosos.

O camelô Luís Gutemberg, o Baiano, veio de Magé, para vender uma centena de binóculos, a Cr$1 mil, e pequenos robôs movidos a corda, que custarão Cr$200 ou “até Cr$500, se o momento estiver bom”.

O portão que veda a pequena estrada de acesso ao “campo de pouso” continua fechado e cadeado. Ontem ele foi aberto para que uma patrulha da PM fosse até o local desalojar alguns curiosos que haviam se instalado por antecipação; e investigar o furto dos documentos de Mauro Ismard, que dormia sob uma árvore.

De manhã, membros da “Comissão de Recepção” estiveram reunidos com a imprensa, para estabelecer normas de conduta e segurança, como se o disco fosse mesmo descer. Repórteres, fotógrafos e cinegrafistas, depois de receberem credenciais fornecidas pelo “Fios 8 de Março”, foram informados pelo major Paulo Guedes (da “comissão”) de que deverão ficar num platô, aberto a trator, a 300 metros do “campo de pouso”. A distância tem uma “explicação científica”, segundo Manoel Cirne Rocha, integrante da Comissão e que se diz engenheiro: é que, segundo ele, a intenção radiação emitida pela nave – de 60 metros de diâmetro e 38 de altura, conforme “descrição” de “viajantes” – velaria os filmes de fotógrafos e cinegrafistas a menos de 300 metros. Abaixo do platô, ao nível do “campo de pouso”, ficarão os convidados, todos credenciados pela Comissão.

Ontem a Polícia Militar anunciou que intensificará o patrulhamento nas rodovias 104, 106, 124 e 162 e nas imediações de Casimiro de Abreu, colocando em estado de alerta os Postos 1, 2, 3, 4, 5 e 18, no que classificou de Operação Ufo, para prevenir a possibilidade de qualquer tumulto. O esquema de segurança procurará atender a quaisquer ocorrências em bares, postos de gasolina e outros locais públicos. A nota diz que o 7º BPM fará o policiamento com um contingente de cerca de 180 homens, sob o comando de um capitão, e que a fazenda será interditada, só sendo permitido o acesso à imprensa e convidados.

Os primeiros policiais chegaram num ônibus e em dois camburões e logo foram impedindo a entrada de carros na fazenda. O capitão Sidney informou que mais tarde chegariam outros 130 homens e ambulâncias, com soro antiofídico e medicamentos para atendimento de urgência.

Apesar da presença policial, e prefeito Céli Sarzeda não está tranqüilo, temendo “um linchamento como o de Cantagalo, se o disco não pousar”:

– Se aparecer, tudo bem. Mas se não desce, o povo é capaz de arrebentar tudo. Estou torcendo para que não venha muita gente. Acho ótimo que emissoras de rádio do Rio digam que há gente demais, que não há mais comida nem água, porque assim o pessoal não sobe até aqui.

O prof. Neves Gurgel, do Rio, compôs um Hino-saudação, para ser cantado “no momento da chegada dos extraterrenos”. O coro diz: “Vem do Alto o caminho que faz/Do Cosmos a substância e a luz/Do planeta do Bem e da paz/Prá ventura a todos conduz”.

D. Pérola, uma das integrantes da “Comissão de Recepção”, dizia ontem, a um repórter cético, que os pensamentos negativos não facilitam o pouso da nave, “que é sempre precedido por uma intensa vigilância por parte dos jupiterianos”. Já d. Esmeralda Xavier de Castro, diretora da Sociedade Interplanetária do Rio de Janeiro, não tem nenhuma dúvida:

– O disco vai descer, porque chegou a hora da verdade. Os jupiterianos acham que estamos perto do fim do mundo e querem divulgação total. Por isso há tanta imprensa aqui. Eles sabem que, se aparecerem para meia dúzia, o governo abafa tudo. Quero ver como calar essa multidão.

Esmeralda explicou que Edílcio Barbosa não pertence a nenhuma sociedade ou religião:

– Ele tem contato direto com Júpiter. É sozinho, não está ligado a ninguém.

A Comissão de Recepção foi formada pelo próprio Edílcio, “a partir de nomes indicados pelos jupiterianos, há três meses”. Depois, os primeiros selecionados indicaram outros e chegou-se a um grupo de pelos menos 30 pessoas.

O prefeito Célio Sarzeda diz que “entrou na história só para garantir a ordem e a tranqüilidade”. Entretanto, suas palavras de descrença são desmentida por um ofício que enviou à Enciclopédia Britânica, solicitando a doação de uma Enciclopédia Mirador Internacional, avaliada em Cr$70 mil, para ser presenteada aos visitantes extraterrestres. O pedido foi atendido e a Prefeitura ganhou a obra do vendedor Antônio Paulo Andreazzi. O ofício do prefeito, nº 073, de 5 de março deste ano, é o seguinte:

“Prezados Senhores

“Conforme tem sido amplamente divulgado pela imprensa, uma sociedade ufológica informa que n

o próximo Sábado chegará a esta cidade um disco voador, trazendo 4 (quatro) pessoas que retornam a este Planeta.

“A Comissão está organizando uma recepção oficial para o caso de efetivamente ocorrer este evento. Nessa hipótese, seria indispensável a doação de algum presente para os jupterianos e nada melhor que uma enciclopédia (sic) que contenha informações sobre os mais diversos aspectos da vida no nosso planeta.

“Sabedores que a Mirador Internacional é a mais ampla obra de referência existente no país, tomamos a liberdade de solicitar uma coleção da Enciclopédia Luxo Branco Imperial, que assim seria o presente oficial deste planeta ao povo visitante.

“Deixamos claro que esta Prefeitura se empenha em efetuar a doação, caso efetivamente se consume a chegada do disco voador; caso contrário essa enciclopédia reverterá a nossa Biblioteca para utilização do povo desta cidade.

“Agradecemos a atenção dispensada ao nosso emissário junto a esta empresa que manteve os contatos iniciais.

CÉLIO SARZEDAS – Prefeito”.

O recorte de 8 de março de 1980 está guardado num álbum. Não há nada do dia 9. O disco não pousou é claro. E o repórter, hoje menos cético, gostaria muito de ter escrito a segunda matéria. Que O Globo não publicaria naquela época, tenho a impressão.

 

Como diria meu velho colega de redação da Folha de S. Paulo, Carlos Rangel (Antonio Carlos Carpi Rangel, buzina algum neurônio), o segredo do sucesso é a má memória. Velho jornalista metido a galã, cabelo aplastrado com Gumex, sempre às voltas com uma paixão impossível e uma pauta incômoda, atribuía essa frase a Ava Gardner. Faz sentido. O segredo do sucesso é a má memória…e alguns retoques.

 

Paulo Markun nasceu em São Paulo, em 1952. Jornalista profissional desde 1971, já foi repórter, editor, comentarista, chefe de reportagem e até mesmo diretor de redação em emissoras de televisão, jornais e revistas. Por dez anos, apresentou o Roda Viva da TV Cultura. Presidiu o Santacine, Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de Santa Catarina, onde vive desde 1998 e a Fundação Padre Anchieta, responsável pela gestão da TV Cultura, Univesp TV, Multicultura, Cultura Brasil e Cultura FM. Markun criou veículos de comunicação (Pasquim São Paulo, Imprensa, Radar, Deadline, Jornal do Norte); escreveu treze livros, dirigiu vários documentários e vídeos. No momento, trabalha como consultor da Unesco na reformulação da TV Escola do MEC. Criou o   Brado Retumbante, projeto multimídia que resgata a história da luta pela democracia. Prepara uma série de documentários sobre arquitetura para o SESCTV. Em razão de sua larga experiência como jornalista e apresentador, Paulo Markun atua frequentemente como mediador e mestre de cerimônias.

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