em busca do tempo perdido editora zahar

Proust e minha madeleine cosmética

Talvez Proust seja o escritor mais celebrado,  quando se pensa em memória. Nos volumes do seu  “Em busca do Tempo Perdido” inúmeras vezes  recorre a um dos sentidos como um canal direto de acesso a uma recordação. Eternalizou as madeleines, que mergulhadas no chá, num dia difícil,  lhe devolveram os encantos de Combray e de sua infância. No caso, visualizar ou tocar as madeleines foram insuficientes; foi  a experiência do paladar que  lhe revelou a memória guardada logo  abaixo da crosta da sua consciência.

 

 

 

quem já não viveu isto?

 

 

 

Aqui  minha versão nostalgica  proustiana

O branco da infância

A latinha era azul, e quando removi a fina película protetora que era de prata, o que ali se libertou não foi apenas o cheiro creme branco, mas a nostalgia de uma infância atemporal, latente em alguma fissura  do meu cérebro, pronta a ser resgatada.

Minha madeleine cosmética, me trouxe de volta um tempo de  esfoladuras na barriga, troféu  de ondas desbravadas em precárias pranchinhas de isopor, dias dourados, o gelado do mar na cabeça suada. Uma toalha vermelha pendurada na janela da sala do apartamento, que dava para a praia, avisava que era hora de subir para o almoço. Não havia desculpas. Comíamos rapidamente, que naquele tempo prazer não era comida, e descíamos de volta à praia. Não conhecíamos indigestão, nem sabíamos dos perigos de se nadar no mar quando de tempestades. Talvez a ignorância seja um ótimo escudo contra raios porque afinal, nenhum de nós nunca foi eletrocutado.

E o fim do dia era banho e o besuntado do creme, este branco mágico, que nos fazia caras pintadas, em tempos que antecederam o filtro solar. Tudo o que queríamos era mais janeiros, um ano inteiro só de janeiro.

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