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“Foi o gato” por Elza Tamas

Koko, a gorila treinada na linguagem de sinais, durante um ataque de raiva arrancou e quebrou uma pia. Questionada pelos treinadores sobre a sua conduta, apontou para o seu animalzinho de estimação e sinalizou: “foi o gato”.

Nosso cérebro ancestral sempre utilizou a mentira como um recurso de sobrevivência. Usamos a mentira para nos qualificarmos, para seduzir, para não sermos punidos, para sermos educados e aceitos e muitas vezes nos mentimos tão eficientemente, que não somos capazes de perceber o nosso auto-engano. Judite mente muito. Mal me lembro do momento que ela resolveu escrever a carta, mas ela garante que eu estava presente.

Além de mentir, Judite tem métodos bastante heterodoxos quando quer explicitar uma verdade.

 Prezada Dona Martha,

Desculpe-me, mas vou ser direta. Seu marido Abílio, há cerca de quatro anos se relaciona com uma jovem de nome Paula. Não uma Paula qualquer, mas uma moça de 23 anos. Uma jovem que viaja com ele, com quem ele janta e se diverte sem medo de ser visto, como se fosse um homem livre. E com esta mesma jovem, dona Martha, ele pretende morar em breve.

Dona Martha, escrevo-lhe em nome da grande admiração que nutro pela senhora e sendo assim, me atrevo a lhe dar um conselho de amiga: se antecipe a ele, não se humilhe mais implorando por um amor que ele não merece. Não compartilhe desta farsa e em respeito à sua família considere a separação como a alternativa mais digna para uma alma como a sua. Só assim ele poderá valorizar o que perdeu. A senhora há de encontrar alento junto aos seus, ao decoro da sua conduta e a sua fé cristã.

Encaminhei esta mesma carta aos seus filhos para que eles saibam quem é na verdade o pai deles, evitando que a senhora fraqueje frente ao que deve ser feito.

Da amiga espiritual.

Sei que ela sorriu ao digitar a última frase, e que se sentiu tomada por um tipo de entusiasmo pueril.  Afinal não é todo dia que se pode mudar o destino de alguém.  “Da amiga espiritual”. As Donas Celestes de qualquer paróquia poderiam ter escrito esta carta.

Ninguém nunca saberia, e isto é o que importava. Éramos boas em guardar segredos, Judite mais do que eu. Em breve nos divertiríamos com as tentativas de Abílio em descobrir a boa samaritana que enfim, solucionava o seu dilema. Nenhuma transgressão ética, já que tudo foi feito em nome de um bem maior. Não ser descoberto numa mentira é o mesmo que dizer a verdade, dizia Judite que repetia Aristóteles. A ação eficaz e a motivação absolutamente correta trariam  bons resultados. Tive que concordar, cinco anos como analista de Abílio qualificavam Judite a atuar a seu favor. Ela chamava de “um ato de compaixão”, afinal Abílio tinha direito a viver sua história de amor; Dona Martha, a que nunca tinha dúvidas, que se encantasse com o divino.

Seu conflito era moral, (como deixar dona Martha?) e só poderia ter sido solucionado se uma terceira força atravessasse o caminho e desestabilizasse o prato da balança. Neste caso a terceira força foi Judite.

Todo mundo tem um gato. O meu se chama Judite.

 

 

 

 

 

 

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