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As traças não comem mingau por André Gravatá

Contamos menos mentiras para os outros do que para nós. Mentimos por dentro para continuarmos na nossa zona de conforto, que nem sempre é aconchegante, mas produz uma sensação de segurança. A zona de conforto é nossa segunda mãe. Se pudesse, ela nos beijaria à noite e nos alimentaria com mingau.

Mentimos em prol da preservação da identidade que construímos, numa tentativa de nos agarrarmos aos fios de vida que pendem no ar. Inventamos um mundo em nós e daí seguimos uma trajetória curva com a fixação de reafirmá-lo. Mas sabemos, no mínimo desconfiamos, que grande parte das nossas certezas estão roídas por traças. Convivemos com traças dentro de nós, mais até do que órgãos. Enquanto as traças destroem as certezas, muitos continuam imponentes, inebriados pela caixa em que entraram.

Deixe as traças consumirem parte de você. Parte de você é mentira que você nem sabe que é.

Colabore com o trabalho das traças, catalise os processos de corrosão – dói menos do que parece.

As traças não comem mingau, preferem corroer artefatos de lã, seda, peles e certezas. Há algumas traças que carregam o casulo nas costas, como a maioria de nós. As traças com casulos nas costas gostam de ouvir música clássica e forró. Se elas estiverem corroendo suas certezas num ritmo vagaroso demais, adicione músicas energéticas no seu iPod, inclusive as que aguçam seus preconceitos – Michel Teló entra na playlist –, daí o trabalho das traças será mais rápido.

Contamos menos mentiras para os outros do que para nós. Mas não contamos mentiras para as traças que vivem em nós. Elas são surdas. Aliás, as traças nem têm ouvidos, apenas olhos verdes. Ou você não sabia que as traças têm olhos verdes? Elas roem tantas mentiras que acabaram criando uma proteção no olhar, um musgo carnívoro que carcome cada migalha de certeza, inclusive os caroços das migalhas. As bases da mentira afundam na floresta ocular das traças.

Conheci uma das traças que morava em mim. Ela não tinha nome, os pais não a batizaram. No mundo das traças há tanta burocracia que batizar os filhos se tornou uma via crúcis – inclusive a taxa de natalidade no mundo das traças tem diminuído, outro problema sério, que será tema de um texto futuro. Em questão de dias a traça se tornou minha amiga. Sempre que encontrava uma mentira minha, ela me cutucava por dentro, um sinal de advertimento que me deixava com azia.

Nas sextas-feiras, às vezes a convidava para beber cerveja comigo, então ela me contava detalhes de todas as falsidades que estava inventando para mim mesmo. Ficava impressionado. Não só com a quantidade de mentiras internas, mas também com o volume de cerveja que a traça bebia.

Tinha receio de que ela voltasse a ocupar meus interiores ainda bêbada – e então começasse a destruir minhas verdades. Certa ocasião, pensei alto demais e a traça captou meu receio com suas antenas. Colocou o copo na mesa do bar e disse: sua maior mentira é achar que você tem verdades. Bebi mais um copo, voltei para casa e dormi com a televisão ligada. Quando durmo, a traça começa a trabalhar. O ronco é o barulho que a traça faz dentro de nós – os médicos ainda teimam em dizer que se trata apenas de questões respiratórias. Deixe as traças consumirem parte de você. Parte de você é mentira que você nem sabe que é.

 

André Gravatá, 21 anos, é jornalista, colaborador de revistas como Vida Simples e Superinteressante. É especialista em traças e desdoutor pela Universidade do Espanto Diante da Vida. Idealizador do [email protected]

www.tedxjovemibira.com

 

 

 

 

 

Imagens: Thiago Martins (www.flickr.com/photos/thiagomartins, foto da home)

“O Terraço do Café na Place du Forum, Arles, à Noite”, 1888, Van Gogh (foto acima)

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