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O buraco negro da imagem verdadeira por Georgia Quintas

“Toda fotografia é uma ficção que se apresenta como verdadeira. Contra o que nos inculcaram, contra o que costumamos pensar, a fotografia mente sempre, mente por instinto, mente porque sua natureza não lhe permite fazer outra coisa.”

Joan Fontcuberta

 

Em um dia langoroso, percebi que a fotografia era um consolo. Alguns retratos de família, de viagens, de parentes mortos, de bebês nonsense com seus olhares vãos, de certa forma sibilaram para mim a dimensão simbólica da fotografia que me acompanha até hoje. Confesso que esta lembrança já se faz turva e eu, menina, não entendi muito bem o significado daquela experiência. Decerto, instaurou-se um estado de espírito entremeado de desejo, cobiça e encantamento com relação às imagens.

Com a imagem fotográfica somos, frequentemente, solapados pela força de um possível testemunho de algo em certo espaço e em certo tempo. Embora tudo o que vemos na fotografia seja visível; é, contudo, em seu nicho mais velado e incógnito que encontramos verdadeiras significações. É justo no espírito entremeado de desejo em imaginar que percebemos novas realidades.

Discordo daqueles que acreditam que a fotografia é uma cópia fiel da realidade. Não é. A firmeza do meu credo encontra vazão na obra teórica O beijo de Judas – Fotografia e Verdade (Editorial Gustavo Gilli, 2010),  do fotógrafo catalão Joan Fontcuberta.

O beijo de Judas é um daqueles livros inspiradores que nos ajudam a compreender as sutilezas e simulacros inerentes à fotografia.  Nem tudo que reluz na superfície imagética é real, assim como nem tudo que pensamos a partir dela é consequência de um mecanismo realista, verossímil, de uma verdade visual e cândida. É com precisão argumentativa que Fontcuberta discorre sobre esse buraco negro da imagem verdadeira. Ele nos apresenta várias facetas sobre o amálgama entre mentira e ficção.

Foto: Fontcuberta

Num estado de espírito entremeado pelo desejo de viver fotografias, as evidências se colocam como pistas para o devaneio. Não estaria falseando ao dizer que a fotografia é interseção de prazeres, vontades, volúpias, afeto, ressurreição e fantasia. Já não contemplo aqueles álbuns da infância há algum tempo. Fico com a memória retida daquele momento o qual persiste em alimentar minha imaginação. Quem sabe, ao revê-las serei traída por fantasmas do que pensava ter visto…

Foto João Castilho – série Temperos - 2009

Sigo com a ideia da fotografia sentida muito mais como materialização de uma experiência do olhar. Esse é meu consolo, absoluto desejo de seguir outros mundos e sensações.

 

Georgia Quintas é professora e pesquisadora no campo da teoria, filosofia e crítica da imagem fotográfica. Doutora em Antropologia pela Universidade de Salamanca (Espanha), mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pós-graduada em História da Arte pela Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP/SP. Atualmente, é Coordenadora da Pós-graduação em Fotografia da Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP/SP. Autora do livro “Man Ray e a Imagem da Mulher – A vanguarda do olhar e das técnicas fotográficas” (CEPE, 2008).

Site com textos críticos: Extraquadrohttp://www.olhave.com.br/extraquadro

 

foto do banner:  André Kertész – Polaroids -1979

 

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