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O nono círculo do Inferno de Dante por Maria Elisabeth Montagna

“Ao meio do caminho de nossa vida, me encontrei em uma selva escura, onde a via direita estava turvada” – este verso inicia a viagem de Dante Alighieri, através do Inferno, Purgatório e Paraíso,  narrada em sua obra “A Divina Comédia” , do século XIII

Neste primeiro verso ao falar sobre o meio do caminho de nossas vidas, Dante refere-se à idade culminante de um homem, os trinta e cinco anos. A selva escura de Dante refere-se à selva errônea da vida, os labirintos do pecado e o seu extraviamento individual.

Na jornada do Inferno, Purgatório e Paraíso, Dante tenta reencontrar a via direita, reta. No Inferno encontra o que de pior povoa os desvios humanos e faz seu julgamento moral, colocando em cada um dos círculos descendentes do Inferno, os erros cometidos pelos homens

No último e mais impiedoso círculo, o nono, os traidores são condenados a, paradoxalmente, enfrentar o mais gélido frio – “ Ao pranto o mesmo pranto ali contende/ e a lágrima detida sobre o cilho,/ em gelo transformada, a dor estende,/ tornando-se terrível empecilho:/ param as lágrimas e aumenta a dor” (1)

A traição, quebra da fidelidade prometida e da palavra empenhada, do distanciamento da virtude, inclui a mentira e vai para além dela: “Que preso fosse e morto não memoro, / por sua maldade eu nele confiando,/ não há quem dizer possa: ‘Eu isto ignoro’ (2). Para Dante, o amor ao próximo é o vínculo natural que deve unir o homem a seu próximo. A falsidade, mentira, a quebra da confiança são suficientes para que o amor incondicional ao próximo, virtude de todas as virtudes, sejam punidas com castigos do Inferno. A conduta do homem deve ser regida pela busca da beatitude. A mentira é inaceitável e destrói a retidão humana. A escuridão, o abandono, o medo, a desesperança são a condenação para aqueles que faltaram com a verdade. É interessante notar que Dante condena aqueles que mentem tanto para os outros como para si mesmo. A correção, força interior e o caráter de um homem não devem ser desviados  jamais do caminho da verdade: contraponto entre a sombra e a luz.

Dante, ao condenar os traidores ao pior dos expurgos inclui aqueles que além da mentira traem a pátria, os traidores de seus hóspedes e daqueles que foram seus benfeitores. Mas, comum a todos perpassa a grande traição cometida a si mesmos: o afastamento das virtudes, onde o homem deve buscar na Natureza e  nas Artes o modo de permanecer na direita via.

 

Referências:

1 e 2) Divina Comédia/ Dante Alighieri; João Trentino Ziller, tradução e notas. Editora da Unicamp, 2010 – Coleção Clássicos Comentados – Inferno, Canto XXXI, pag 203

 

Assista aqui um trailer de “Abandon All Hope” a história do Inferno de Dante, narrada por  mais 15 artistas  e estudiosos dos Estados Unidos e da Itália

Fotos por ordem de apresentação

Domenico de Michellino – Dante e os  3 reinos da Divina Comedia

Gustavo Doré

Botticelli

Gustavo Doré

 

Maria Elisabeth Montagna é doutora em Psicologia Clínica Pela PUC/SP e é  estudiosa e admiradora da obra de Dante Allighieri

 

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