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Pinóquio e o mentiroso em nós por Alex Cerveny

No começo, acho que entendia a mentira apenas como uma mera estratégia de sobrevivência(“- Já tomou banho?  -Tomei!”…), mas, com o tempo, percebi que mentir também nos ajuda a obter recompensas preciosas, tais como prazer e vingança.  Penso que todos nós que sobrevivemos aos horrores da infância e às infâmias da adolescência, obtivemos tal êxito porque aprendemos a mentir com convicção. E assim nos tornamos crianças mais adequadas e adultos mais bem preparados para enfrentar o mundo real.

Ler e ilustrar o Pinóquio de Carlo Collodi, na tradução de Ivo Barroso foi uma redescoberta. Não apenas quanto ao texto, sem cortes e original. Mas também pelas frestas que se abriram nele, para que eu reencontrasse na memória as minhas primeiras estripulias e atos inconfessáveis. Este trabalho fez com que eu me projetasse em muitas das cenas apresentadas, algumas vezes próximas dos vestígios de minha própria, (ou de qualquer) infância e das fantasias vividas no processo de metamorfose para a vida adulta.

Este Pinóquio completo, que pode ser subentendido também como um “manual de conduta para meninos”, é bem diferente das histórias educativas de Heinrich Hoffmann reunidas em Der Struwwelpeter anos antes. Collodi junta tudo em uma galopante narrativa e ainda acrescenta importantes ingredientes morais e sentimentais. Contém um oceano de possibilidades para o ilustrador.

Seu mundo é um lugar mágico, e como tal, é cheio de armadilhas perigosas para uma presa perfeita como Pinóquio. Ele fala demais, não escuta, é exibido e não suporta ser contrariado. É ingenuo, impaciente e não pensa antes de agir. Suas mentiras frágeis não convencem enquanto boneco, e talvez o objetivo maior, por trás do “tornar se um menino de verdade”, seja justamente o desejo de aprender a mentir de uma maneira convincente.

Foi em setembro de 2011, depois de quase um ano de tentativas, de busca de um traço e de um formato para o boneco e seu mundo mágico, que eu achei que este Pinóquio poderia se “revelar” através do cliché-verre.

Neste procedimento híbrido, meio gravura e meio fotografia, as imagens foram desenhadas em chapas de vidro coberto de fuligem, e depois reveladas. Resultam de um artesanato onde quase não existe atrito, porque a agulha desliza na superfície do vidro removendo a fuligem sem nenhuma resistência. A luz que atravessa o negativo de vidro grava a imagem no papel. O resultado traz um pouco da atmosfera e da textura dos calotypes do século dezenove.

A partir daí, em poucas semanas Pinóquio foi “revelado” em cerca de sessenta imagens e entregues quase diariamente. Não foram feitos esboços preliminares, e tive que fazer muito poucas correções; assim, penso que estes clichés contém bastante sinceridade.

É preciso admitir que fiz uso de um novo instrumento para a execução desta série, uma lupa, que me permitiu fazer com mais conforto e precisão todas as caligrafias e filigranas, e a enxergar as miudezas do desenho, como na juventude.

 

 

Alex Cerveny nasceu em 1963, em São Paulo, onde até hoje vive e
trabalha. Sua formação aconteceu principalmente nos ateliers de dois
artistas: Valdir Sarubbi e Selma D’affrè, com os quais estudou desenho
e gravura; e para os mesmos, trabalhou como assistente entre 1979 e
1984. Expõe regularmente desde 1982. Seus desenhos, gravuras, bronzes,
azulejos e pinturas estão sempre carregadas de história.
Paralelamente, realizou atividades ligadas ao ensino livre da arte e à
contínua produção de desenhos de ilustração para jornais, livros e
revistas.

http://casatriangulo.com/pt/artista/3/trabalhos/1/

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