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A culpa atávica por Rita Ortiz

 

No Brasil Colônia, os negros escravos e alforriados eram devotos de N. Sa. Do Rosário. Na segunda metade do século XVIII, eles se constituíram em uma irmandade e com seus parcos recursos, construíram a Igreja do Rosário dos Pretos, na Ladeira do Pelourinho,em Salvador. Desde então, a liturgia dos cultos têm feito uso de música, ritmo e outros tipos de expressões inspiradas nos Terreiros de Candomblé.

Os africanos escravos foram proibidos de praticar o culto aos seus deuses, os Orixás, e obrigados a se tornarem católicos praticantes, embora freqüentando igrejas separadas. Começaram então a nomear os Orixás com os nomes dos santos dos colonizadores para, assim burlar tal proibição e, ao mesmo tempo, preservar a sua crença. Afinal de contas, eles próprios já haviam também perdido a sua identidade de origem e sido renomeados com nomes católicos através do ritual do batismo. Esta era a prática aplicada: o enfraquecimento da identidade e da unidade através da sua perda. A renegação da raiz.

Até hoje, em Salvador, acontece na Igreja do Rosário dos Pretos, todas as terças-feiras, sempre às 18h00, a missa para S. Antônio de Cartegerona, um santo negro. Como no momento esta igreja está em fase de restauração, a paróquia do Carmo acolheu os fiéis, a imagem de S. Antônio e toda a forma de manifestação religiosa desta irmandade.

Terça-feira passada participei dessa missa na paróquia do Carmo e pude constatar que naquele lugar a religião realmente está fazendo jus ao seu significado etmológico: RELIGARE  – do latim: religar ao divino. O sincretismo é o laço. É a liga. É o que mantém todos unidos. O que acontece ali é o resultado da resistência a anos de perseguição e da tentativa de apagar a força da cultura que está inscrita no sujeito desde o seu nascimento. Podemos chamar a forma encontrada de diversos nomes: inclusão, combinação, condensação… não importa. A prática religiosa se faz dentro de uma igreja católica ministrada por um padre católico com cânticos e orações católicas ao ritmo dos atabaques.

Durante o ofertório os fiéis em procissão levam, dançando, cestas cheias de pão que são depositadas aos pés do altar. É o ápice! Nesse momento as vozes, a dança, os atabaques, tudo junto cria um clima de unidade que nos leva a crer, por um instante, que a paz existe, que somos todos iguais, que Deus é um só e somos seus filhos e que a hierarquia pela cor, pelo credo e pela posição social não existe. Muitos se emocionam e choram. O grande sonho da humanidade está ali posto em ato.

Ao final, o padre ainda utiliza mais um elemento dessa mistura cultural ao benzer tanto os pães ofertados quanto os fiéis com a água benta retirada do cântaro, com folhas sagradas próprias do benzimento africano. E como se não bastasse, os pães, que numa outra igreja bem próxima dali, são entregues ao final da missa aos pobres que ficam do lado de fora, ali, naquele lugar, são distribuídos entre todos os presentes para configurar que somos todos pobres, mesmo estando do lado de dentro.
Ao sair lembrei-me de uma reportagem que eu tinha lido sobre a Jornada Mundial da Juventude Católica que aconteceu em Madri em agosto de 2011. Nessa reportagem tinha uma foto de 200 confessionários, propositalmente construídos para a data e instalados nos Jardins do Bom Retiro, para que os jovens confessassem os seus pecados. Essa é, até os dias de hoje, uma prática comum da Igreja Católica aplicada naqueles que se sentem culpados dos seus atos.

O sincretismo foi a saída encontrada pelos afro-descendentes para viverem a sua crença. O confessionódromo foi a encontrada pelos colonizadores para expurgarem suas culpas.

 

 

um pouco da missa:

 

Rita Ortiz é psicanalista clínica, com especialização em psicofarmacologia, trabalhou durante 25 anos em saúde mental e nos últimos 5 anos vem trabalhando com adolescentes vítimas de violência familiar. Reside em Sa

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