Criacao do Mundo e expulsao do Paraiso, Giovanni di Paolo

A culpa e o perdão pela Irmã Valentina

 

Fui culpada!… Arrependo-me de ter dito um “sim” para Elza, mas agora já é tarde! Tentarei elaborar o texto. E se tivesse dito um “não”, estaria livre da culpa de negar-lhe uma colaboração ? Questão tão banal ! É possível desbanalizar o enigma da culpa, desvelar este fenômeno universal e humano – demasiadamente humano ?

Um dos grandes desafios do mundo contemporâneo, talvez sem precedentes, seja a diversidade e pluralidade em que estamos mergulhados. Sygmunt Bauman fala em “viscosidade” que significa um novo “habitat” para aquilo que entendemos como verdade, certeza, crença, identidade. O que é ou não certo, o que é ou não verdadeiro hoje se pluralizou… e os filósofos disputam isto, construindo não uma teoria da verdade, mas uma teoria das verdades, no plural.

Nessa perspectiva como falar da culpa ?  Reporto-me, então, a uma perspectiva “religiosa”. Religião não reduzida a um mero ato humano, natural, sem transcendência, mas voltado às fontes, ou seja, à Palavra Reveladora. Sua origem misteriosa ensina ao ser humano qual sua verdadeira origem, sua autêntica morada.Sua manifestação emerge das entranhas da história para brilhar na alteridade do rosto do outro e do Outro que nos transcende – Deus !  Perspectiva da Fé !.

Como pensar a alteridade do Outro que nos transcende ao refletir sobre culpa pessoal, culpa coletiva, arrependimento, remorso e sobretudo perdão ?

Na pluralidade de possíveis respostas evidencio a existência dos Sacramentos na vida da Igreja Católica, e de modo especial os Sacramentos do Batismo, da Reconciliação e da Eucaristia. Eles têm a força de provocar-nos “com a graça ao movimento de rejeição da face escura da ação egoísta e de fazer aumentar a dimensão da bondade, de liberdade, de desprendimento, de saída de nós” para o encontro com o outro e com Deus.

Um poeta indiano diz que convidou Deus para vir a sua casa. Deus veio e esqueceu-se de ir embora. É isso que aconteceu em cada um de nós ! Deus veio no Batismo, o Espírito Santo veio no Batismo e esqueceu-se de ir embora. Continua entre nós: crentes e não crentes. Ele continua falando, acordando-nos e é por isso que a história tem sentido, é por isso que nós temos esperança, é por isso que existe ética ! E quando sentimo-nos culpados, o que Deus, presente em nós, pode nos revelar?

"A volta do filho pródigo" Rembrandt Van Rijn. 1606-1669.

A necessidade do perdão! Aprender a perdoar-se e deixar-se perdoar. O perdão é refazer alguma coisa que, de fato, escapou da nossa mão, já não é nosso. Quando, por exemplo, dirijo a palavra a uma pessoa, essa palavra já saiu de mim. Eu já não sou dona dela. Não posso refazer, destruir. Se eu pudesse fazer isso, não precisaria de perdão. A única realidade capaz de reconstruir é o outro perdoar. Se o outro não perdoar, difícil se redimir. Por isso precisamos de perdão: dado e recebido. Ainda numa visão de Fé, perdão é dom, é gratuidade, é amor. É dele que precisamos, é ele que nos refaz, nos recria até da maior culpa que temos. Precisamos do perdão do outro e do Outro Absoluto que é Deus ! Do Deus de misericórdia que acolhe o filho pródigo com amor de Pai-Mãe !

 

Irmã Valentina Augusto é freira da Congregação das Irmãs Salesianas há 50 anos. Estudou Pedagogia e Filosofia na Fatea de Lorena, SP e Orientação Educacional na PUC/SP. No ano de 1992 estudou em Roma, residindo na Casa Geral das Irmãs Salesianas.

Foi Diretora de Escolas das Salesianas em Lorena, Ribeirão Preto e São Paulo. Atualmente integra a equipe de Educadores da R S E – Rede Salesiana de Escolas – do Polo S. Paulo, na função de “animadora”, cujo escritório fica nas dependências do Liceu Coração de Jesus, Alameda Dino Bueno, 353, Campos Elíseos, SP.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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