telefone antigo 3

A herança por Adriana Rossatti

Meu avô foi um homem incrível. Inteligente, empreendedor, autodidata.

Veio da roça, de Paraguassú Paulista, para a capital nos anos 40, depois da final da guerra. Trabalhou na Light, foi motorista de bonde; à noite sentava no quintal da casa alugada na Vila Gustavo, Zona Norte de São Paulo, e fabricava colchões para vender.

Aprendeu a ler sozinho, olhando para as figuras do jornal e desvendando as letras. Nunca sentou em um banco de escola, era sua maior frustração.
Da manufatura caseira de colchões, passou para uma pequena fábrica. Abandonou o emprego diurno e abriu uma loja de móveis.
Minha avó virou dondoca. Ia ao cabeleireiro todos os dias, usava luvas. Ele causou furor quando entrou na Tanque Velho com um Simca Chambord verde água novinho em folha, rabo de peixe. Os sapatos estavam sempre lustrados e o cabelo tratado à gumex.
Era um apaixonado pelas evoluções do tempo, uma alma eternamente jovem.

Quando viu uma televisão pela primeira vez, não teve dúvidas. Disse “Isso ainda vai ser uma coisa muito importante.” e comprou o trambolho. Durante anos foi a única televisão de todo o bairro, transformando a casa da família no local de encontro social mais importante da redondeza.
Compensou sua frustração com os dois filhos, formados em Economia e Direito. Só foi ser propriamente alfabetizado pela namorada do filho mais velho, minha mãe, que é pedagoga e ensinou a letra cursiva com a cartilha e cadernos de caligrafia.
Quando se aposentou foi morar com a gente por uns anos. Fez um curso de hidroponia e cultivava verduras e legumes orgânicos em um terreno dos meus pais. Vendia para algumas pessoas, freqüentava os bailes da terceira idade, tinha uma paciência ilimitada com as quatro netas adolescente.
Chorou quando foi para o Chile e viu o Oceano Pacífico. Chorou pela imensidão do mundo. Chorou também, na nossa frente, quando minha irmã mais velha tirou carta e o levou para passear dirigindo um carro pela primeira vez. Era um grande entusiasta da vida e nunca, nem por um segundo, deixou de agarrar uma oportunidade e agradecer pela benção.
Ele teve seus defeitos. Começou a fumar aos 45 anos. Mulherengo, colecionou amantes. Foi morar com a última aos 82 anos de idade, causando a ira da minha avó e do meu pai. Dois anos depois foi assolado pelas doenças pulmonares resultantes do tabagismo. Ficou debilitado. Passou a viver ligado a um balão de oxigênio.
Fui visitá-lo escondida, na casa de sua companheira alguns meses antes de morrer. Estava magro, fraco e falava pouco pela falta de ar.
Os olhos continuavam brilhando.
Aos 87 anos, com uma doença terminal, meu avô me contava de seus planos para o futuro. De como sua companheira havia reformado a casa para atender suas necessidades de saúde e de como eles iriam mudar para o litoral assim que o médico autorizasse. Olhei para aquela mulher com muita gratidão. Apesar de ela ter sido amante do meu avô e de ter causado tanto sofrimento à minha avó, eu aprendi identificar amor e soube na hora que ele não seria tão bem cuidado por nenhum de nós. Foi a última vez que vi meu avô vivo.
No dia 21 de dezembro de 2002 ele morreu. Sua companheira preparou o corpo, entregou aos filhos e não foi ao enterro em respeito a nossa família. Minha avó não foi tão pouco. Sempre foi rancorosa e nunca o perdoou pelas traições. O velho mulherengo teve apenas suas netas de mulheres no enterro.
Seu rosto no caixão era sereno. O sono tranquilo de quem carregava apenas um arrependimento. Ele me disse uma tarde, quando ainda morava conosco: “Não me arrependo de nada na vida, minha filha. Da bebida, das mulheres. A única coisa que me arrependo é do cigarro.” Foi a única culpa que sentiu, a única que o matou. Duas noites após o enterro, ele veio em meu sonho conversar. Eu era, talvez, sua neta favorita de papo.
Em meu sonho ele olhava para mim, sorria e me pedia um favor. “Minha companheira está sofrendo, filha. Fala para ela que ela não precisa chorar. Que eu estou bem e que ela vai ficar bem.”. Acordei com a responsabilidade de ligar para a tal mulher de quem nem podíamos pronunciar o nome em casa. Fiquei com medo, fraquejei. Nunca liguei.
Não há uma única vez em que penso nele e não procure viver com a sede que ele tinha. Também não há uma única vez que eu não me corroa de culpa pelo telefonema que nunca dei.

 

Adriana Rossatti, 35 anos, é pseudo-escritora, ex-fumante e viajante compulsiva. Chorou quando viu o Pacífico, e mais uma dezena de maravilhas que a gente vê quando está vivo. Sentenciada culpada pelos telefonemas não dados, pelos livros não lidos e por cada dia que deixa passar em branco. Espera fervorosamente não morrer disso.

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