roman dancing

Não somos culpados ! pelo cigano Sani Rifati – versão bilingue

 

Não somos culpados. 

“Vamos espremê-los e deixá-los  vazios e aí vamos enchê-los com o que é nosso”  George Orwell, 1984

 

Os Roma*( Ciganos*)  tem sido mal interpretados pela civilização ocidental há muito tempo. Tempo demais!

Apesar de tanta discriminação, rudeza e segregação constantes, os Roma ainda continuam existindo desde sua partida, há mais de mil anos, da terra-mãe India, na região de Punjab no noroeste do país.

Vim a Salvador, na Bahia, em janeiro de 2012, para ensinar as danças ciganas tradicionais Romanis.

Para minha surpresa, percebi que o termo usado no Brasil para designar o meu povo é sempre “cigano”.

Como sou da antiga Yugoslávia, da região  de Kosovo na Servia,  onde estamos acostumados a ser identificados sempre como Roma – romanis, nós nos recusamos a sermos chamados de Ciganos, Gitanos e congêneres.

Antes de lavar minha alma, vou lhes dizer algo e talvez possam avaliar por si mesmos se nós, os Roma somos culpados.

A civilização ocidental sempre viu nossa cultura como uma cultura pária. Consideram que não temos uma cultura verdadeira, sendo que alguns até nos vêem como sub-humanos. Não é nada fácil ser Romani; por conta de nossa diáspora, as nações e sociedades que nos hospedam, com freqüência negam nossa existência. Somos uns andarilhos, os viajantes existenciais.

Entretanto, somos também acusados de sem educação, sujos, ladrões mentirosos e por aí afora…De maneira que vamos aqui, passo a passo, desmitificando o mito, os estereótipos que ainda assombram nossa identidade romani.

Sempre somos empurrados para os limites das cidades, bem longe da sociedade convencional, enxotados para perto dos lixões ou para a periferia sem estrutura das cidades, onde o serviço público nem chega. Se não temos acesso a serviços públicos como à coleta de lixo, isto nos faz mais sujos ou culpados?

Muitos roma na moderna sociedade de hoje não conseguem nem uma certidão de nascimento no lugar onde seus filhos nasceram. O mundo moderno é obcecado por certificados, porém se as crianças ciganas não têm nem chance de conseguir tal certificado isto implica em que as mesmas não podem freqüentar uma escola, não conseguem um emprego, muito menos têm acesso a um bom plano de saúde e isto as torna culpadas por sua falta de instrução? O que lhes resta se não juntar seus trapos e seguir estrada afora e isto as torna culpadas de serem errantes? Uma vez na estrada, as autoridades policiais exigem que os pais exibam os documentos de seus filhos.   

Na cultura romani há sempre o cabeça do clan ou do grupo que representa todo o resto. Às vezes são chamados de reis ou “capo” e são responsáveis por estabelecer uma relação com a polícia e assim contar com a esperança de não serem enxotados para mais adiante, para um outro destino e isto faz com que os Ciganos tenham que mentir. Mas, isto faz de nós mentirosos e culpados?

Quando só o que estamos tentando é nos estabelecer e nutrir a esperança de ter um pedaço de terra ou uma propriedade. É pedir muito?

Não vejo a cultura romani como simples vítima; somos também sobreviventes.

Imagine não ter um país, nem um governo nem uma máquina política que defenda nossos direitos. Ainda assim os romanis existem espalhados pelo mundo todo. Imagine uma cultura que nunca foi à guerra, que não tem heróis nacionais, que não pode se   vangloriar de quanto de arte e outros ofícios  contribuiu, através da diáspora romani. A ironia maior é que sempre se referem à nossa musica como “A Rainha Cigana” ou o Rei dos Ciganos”( Gipsy King) ; na verdade, os roma nunca tiveram reis ou rainhas; este rótulo nos foi erroneamente dado pelo mundo ocidental civilizado.

Devo mencionar alguns poucos Roma, heróis verdadeiros nas artes: Charles Chaplin que  a muitos inspirou, assim como Yul Brinner,  Rita Hayworth.

O Flamenco foi inventado na Espanha por nós, como também as Czardas na Hungria. Ainda Django Reinhardt e muitos mais.

Agora, voltando ao Brasil, fui visitar com o fotógrafo Rogerio Ferrari, um homem adorável, uma mahala Roma, na Bahia.

rogerio ferrari -ciganos

Descobri que os Roma do Brasil são provavelmente o primeiro grupo que encontrei que não trouxe a música com eles. A maioria veio de Portugal ou Espanha, e  aqui chegaram com Cristovão Colombo em sua terceira viagem às Américas, por volta de 1.500.

Ainda para minha enorme surpresa, Brasil é o único país que tem o feriado dos Romanis, como já devem saber, no dia 24 de maio. Logo na minha primeira visita ao país, parecia que todos já me conheciam desde sempre, assim compartilhamos muitas histórias, música e confraternização. Senti também que há no Brasil um grande respeito e atenção à nossa cultura. Senti-me em uma grande Mahala, sem culpa!

Oven saste. Obrigado!

 

 

*Rom = ser humano, ou pessoa (sing) também significa marido na lingua Romani

Roma = pessoas (plural)

Romani= adjectivo, ex: lingua Romani, historia etc.

Gypsy – Cigano= A palavra vem do latim, “Gypsian” significa a person nascida no Egito. Em inglês refere-se a Roma como Gypsies – cigano ou existe  uma gíria  “I got gypped”  – em tradução livre – fui ciganeado – que significa que alguém o enganou, roubou.

Cigan= etimologia do grego Tsiganoi ou Atsiganoi que quer dizer “intocável”

Cigano também é um pejorativo em todos os países eslavos.

Tradução do texto feito originalmente em inglês: Helena Heloisa Wanderley 

 

 

Sani Rifati é um percussionista romani, cantor, dançarino e instrutor de danças. Tambem é presidente do Voice of Roma e Produtor de festivais e diretor artistico

 


 

 

 

 

 

 

 

 

Texto original em inglês

 

                                                                                                                                      “Not Guilty”

“We should squeeze you empty, and then we shall fill you with ourselves.”

George Orwell, 1984

 

For a long time, the Roma* (Cigan*) Gypsies*, have been misunderstood by western civilization. For a far too long time.  In spite of so much discrimination, harshness and still constant discrimination, Roma still exist since they left their motherland India over 1,000 years ago from the northwest region, Punjab.  I came to teach traditional Romani dances in Bahia, Salvador in January 2012.. To my surprise, the term “Cigan” was the term that is used always in Brazil. Coming from former Yugoslavia in the Serbia region of Kosovo, we strongly identify as Roma. We refuse to be called other names such as Gypsies, Zingari, Zigonier etc…

Before trying to cleanse my soul, let me tell you a few things and then maybe some of you will understand whether we, the Roma, are guilty.  Western civilization always saw our culture as the ‘pariah’ culture. They told us that we don’t have real culture. As a matter of fact some used to think we were subhuman. Being Roma, it’s not an easy thing, in our diaspora our host nations and societies often deny our existence. We are the wanderers, the existential travelers. Yet we are also uneducated, dirty, thieves liars etc…  So let’s go step by step and demystify the myth, the stereotypes that are still haunting our Roma identity.

We’ve been always kicked from the mainstream society to the margins of towns, near the garbage dumps or most undeveloped part of the town. Most of the roads are unpaved and the environment around has a lot of debris and garbage. The public services don’t even bother to come and clean the space. If we don’t have these services provided to us, does that still makes us dirty or guilty?

Many Roma today in modern civilized world can’t obtain their birth certificates in the place where the children are born. Modern world is obsessed with paper, but if Romani children have no chance for this paper, that means these children are not allowed to go to school, look for work or get adequate healthcare, does that makes these children guilty of being uneducated?  So what’s then left, but to pack your belongings and go on the road, does that makes us being guilty of being wanderers? Once when you’re on the road then the police authorities demand from the parents the proper documents.

In Romani culture there is always the head of the clan or group who represent the rest. Sometimes they are called kings or capo’s in order to establish some relation with the police and hope they would not be kicked in to the next destination, that’s why Roma must lie. Does that makes us liars and guilty?  When we’re just trying to settle in the hope of having land or property. Is that too much to ask. I am not seeing the Romani culture as only victims, we are also survivors.

Imagine having no country, no government, no lobbying machine to defend your rights. Yet we the Roma still exist all over the world. Imagine a culture who never went to war, don’t have national heroes, not to mentioned how much Roma diaspora contributed to the world in arts and other trades. Even another irony is they always refer to Roma music as “Gypsy Queens” or “Gypsy Kings” as a mater of fact Roma never had queens or kings, that label that was given to us by the western civilized world.
I would just mention few of real Roma heroes in arts, Charlie Chaplin inspired many people around the world as well as Yul Brenner, Rita Hayworth, Roma invented Flamenco in Spain, Czardasz in Hungary, Django Reinhardt and many more.

Now, back to Brazil, we went to visit with few Roma mahala (neighborhood) with lovely man named Rogerio Ferrari, a photographer.  To my surprise, I found out that more or less the Roma from Brazil are probably one of the first group of Roma that I encountered who didn’t bring the music with them. Most of them came from Spain and Portugal. Also some of them arrived on the third trip of Christopher Columbus around 1500. Also to my huge surprise, Brazil is the only country that has a national holiday for Roma, as you probably know May 24 .. In my first visit to Brazil it felt like people knew me forever, we shared a lot of stories, music, and togetherness. I felt a lot of respect and attention for my culture. It felt like a huge mahala so we have no reason to feel guilty.  Oven saste (obrigado)!

 

 

*Rom = human being, or person (sing) also means husband in Romani language

Roma = people (plural)

Romani= adjective, example Romani language, history etc.

Gypsy= The word is from Latin, “Gypsian” means a person from Egypt. In English that’s why they refer to Roma as the Gypsies or there is slang “I got gypped” that translates to somebody cheated you.

Cigan= etymology if from Greek Tsiganoi or Atsiganoi means “untouchable”

Also Cigan is a derogatory term throughout all Slavic countries, as well.

 

Sani Rifati is a Rom drummer (dumbek and trap drums), singer, dancer anddance instructor. Sani is also Voice of Roma’s President and Festival Producer and Artistic Director

 

 

 

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