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O comunista e o mal estar dos tubarões por Elza Tamas

Depois de velhos deram para rezar. Ele comunista se saia bem dizendo, não esperem coerência, a idade me permite não ter que dar explicações. Ela, Dona Antonia, rezava seguindo a hierarquia do afeto: primeiro para o marido, depois os filhos, netos, noras e os amigos. Aí vinham os cachorros, os vivos e os que já tinham se encantado. Pelos animais, rezava para que eles se vissem livres da ganância humana.  Um dia pensou nos tubarões e rezou por êles. O marido interditou: Pelos tubarões, não!

O drama de consciência estava instalado. Dona Antonia queria rezar pelos tubarões. Ou mentia para o marido, ou traia seu desejo e deixava os tubarões ao seu próprio azar. Rezar virou uma tortura, e ela lentamente ia sendo devorada pela culpa.

Um conselho familiar deliberou que o marido devia dar seu consentimento expresso e liberá-la. Tudo acertado, a autorização foi lida num manifesto pró predadores, numa grande bacalhoada de domingo.

Sem a culpa, seriamos ainda bárbaros, matando e nos devorando em busca apenas da sobrevivência. A culpa é disciplinatória, ela é fruto do encontro entre o nosso desejo e a lei. Indica que alguma ação ou mesmo um pensamento, violou nossa moral e aponta um caminho de reflexão. Torna-se patológica quando se fixa, e como um disco riscado repete sempre a mesma melodia de acusação.

Em contrapartida a ausência total de culpa se chama psicopatia ou sociopatia. O mal que eu faço a alguém me é completamente indiferente, desde que eu me saia bem; os meios não estão em questão. Inclua-se ai matar, roubar, mentir, manipular, explorar, extorquir, etc.. . Não soa familiar? A doença dos nossos tempos.

Mas talvez o aspecto mais inusitado da culpa se encontra no fato de que ela sempre se ancora na arrogância, na nossa prepotência. Se aceitarmos nossa condição humana, quer dizer, somos falíveis, – não vamos conseguir dar jeito em tudo, vamos errar e muitas vezes não temos como atender as nossas próprias expectativas sobre os nossos desempenhos e muito menos as dos outros-, seremos menos vulneráveis a culpa.

A culpa encontra brecha na auto indignação. Afinal como EU pude? Nosso Eu sempre se julga especial, esperto e detesta ficar exposto. Ele também precisa muito se sentir amado e aceito e tem pavor de ser rejeitado, por isso se esforça muito.   O acerto de contas final é de forro intimo, de eu para EU, e será mais facilmente resolvido com uma boa dose de humildade.

Uma forma saudável de elaborar a culpa é através do arrependimento.   A culpa não dignifica; não nos torna pessoas melhores, a menos que ela gere uma revisão. Como ela tem uma natureza acusativa, autoritária, em geral nos causa paralisia e negação. O arrependimento por sua vez é mais generoso: oferece perspectiva, desdobramentos e ações reparadoras.  Se eu posso ser compassivo comigo, mais facilmente serei com os outros também.

Sobre a Dona Antonia: desde que a sua pratica de reza foi liberada, foi registrado um acentuado decréscimo nos casos de ataques de tubarão, no litoral de Recife. Assim ela entende: agora não pode mais sair de casa, porque dela depende a vida de muitos banhistas.

 

 

 

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