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Uma menina Terra por Elza Tamas

 

 

Ela queria conhecer o centro da Terra, mergulhar com os peixes de todos os mares e navegar por 80 dias num balão. Os pais duvidaram: não  prefere uma boneca? Meio cabeça dura, garantiu que tinha certeza do que queria.

No dia 25 de dezembro as amigas vizinhas desfilavam barbies loiras, morenas, susies noivas com grinaldas. Ela carregava a sua coleção de  livros já não mais tão convicta da sua escolha, e mesmo com todas as promessas  oferecidas por Julio Verne, não deu conta da decepção. Chorou escondido.

 

 

Ouspensky , no seu livro “Fragmentos de um ensinamento desconhecido”, ilustra muito bem  como opera a mecânica do desejo:  “o homem é dividido em uma multiplicidade de pequenos eus, e cada pequeno eu pode se denominar com o nome do inteiro, da unidade, pode agir em nome dela, aceitar ou recusar por ela, fazer promessas em seu nome… isto explica porque as pessoas tomam frequentemente decisões e raramente as realizam: um homem decide se levantar cedo a partir de  amanhã. Um eu ou um grupo de eus decide isto. Mas se levantar cedo, diz respeito a um outro eu que não está completamente de acordo com a decisão e que pode mesmo não  fazer nada a respeito. Claro ele vai  permanecer na cama pela manhã e na noite seguinte ele vai mais uma vez decidir se levantar cedo. Em alguns casos as consequências podem ser muito desagradáveis.
um pequeno eu pode acidentalmente  prometer alguma  coisa, não a ele mesmo, mas a outra pessoa num determinado momento, simplesmente por vaidade ou prazer…. a total combinação dos outros eus, que são completamente inocentes deste gesto, deverá pagar o preço, às vezes por toda a vida. Esta é a tragédia do ser humano: todos os pequenos eus tem direito a assinar cheques. A vida de certas pessoas se passa a pagar cheques assinados por eus acidentais ” 

   

 

Na  noite do Natal do  ano seguinte, 24 de dezembro de 1968, o mundo assistia extasiado, a nave Apolo 8 orbitando ao redor da  lua. As crateras passavam quase ao alcance das mãos, enquanto a Terra nascia,  inesperada, num quarto crescente azul.  O planeta de longe não mostrava a efervescência que vivia: movimentos estudantis, passeatas e manifestações; a guerra do Vietnã, os hippies, a morte de Martin Luther King. Delineada por  um novo horizonte a Terra  surgia  impávida e  calma, coberta de nuvens. Mudava o homem, a humanidade e a extensão de até onde era possivel desejar.

Ela também tinha mudado, ganhou do namorado o que queria:  o compacto simples dos Beatles,  Strawberry fields forever, com direito a  música Penny Lane no lado 2.  As amigas da rua não entenderam nada.

 

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