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A TRAVESSIA DE INANA PELO MUNDO DOS MORTOS por Silvana Parisi

“A cada um dos sete portões do mundo dos mortos, a  terra de onde não há retorno, é removida uma peça das ricas vestes de Inana.

‘O  que é isso?’ ela questiona. ‘Quieta, diz o porteiro real, as leis do mundo  inferior são perfeitas, não podem ser questionadas”.

 

Este é um trecho  do antigo mito sumério, de cinco mil anos atrás que conta da descida da deusa  Inana ao mundo inferior, governado por sua irmã, a terrível rainha dos mortos:  Ereshkigal. Lá, desnuda, a poderosa deusa do céu e da terra, estrela da manhã e  do entardecer, é condenada à morte. Após três dias, em que a terra fica  estéril, Inana é resgatada, renasce e volta ao mundo superior transformada, acompanhada  de seres demoníacos e tendo que encontrar um substituto para deixar em seu  lugar.

Simbolizando uma  verdadeira viagem ao inconsciente, este mito retrata os processos profundos da  alma em que ocorre a morte e o renascimento, o que também é característico dos  rituais de iniciação: abandonar velhos hábitos e apegos, despojar-se da antiga
persona, para dar lugar a um novo modo de ser. Atravessar cada portão e ser despida  implica sacrifício, entrega, rendição. Há que se ter coragem para empreender  tal jornada.

Nos mitos,  muitas vezes, a grande travessia de heróis e heroínas é para o reino dos  mortos. As travessias marcam as passagens importantes, as transformações  necessárias no percurso da vida. Uma parte de nós morre a cada doença, perda,
separação. Fechamentos de ciclos, épocas de transição e mudanças que a vida nos  impõe, ou talvez nos convide a fazer. Como canta Milton Nascimento: “Quando você foi embora, fez-se noite em meu  viver; forte eu sou, mas não tem jeito, hoje eu tenho que chorar”.

 

Chega o  tempo da noite e das lágrimas em que sob o olhar de Hécate, atravessamos o  Estige na barca de Caronte  e percorremos as terras áridas e desoladas do mundo  dos mortos. Às vezes a visita às paisagens ermas é breve – uma sombra escurece
por instantes nossa visão. Outras vezes, é visceral – descemos aos abismos da  alma. Na vida, fazemos essa travessia várias vezes e de maneiras diferentes,  geralmente, de forma involuntária.

É uma terra que  tem leis próprias: uma advertência sobre os riscos destes subterrâneos da  psique. Associada à vivencia depressiva, a estadia prolongada nesta dimensão, entorpece e congela a vida, lembremos, é a “terra de onde não há retorno”.

Ao mesmo tempo,  a travessia pelo mundo inferior é potencialmente transformadora: é o lugar dos  lentos processos de gestação. A semente só pode germinar no escuro e na umidade  do útero da terra. Há um tempo para isso, o que exige acolhida e respeito.
Embora possa ser uma espera dolorosa, a natureza tem seus ciclos: a morte é  adubo para a nova vida.

* foto banner – Caronte – Gustave Doré

 

Silvana Parisi  é  psicóloga clinica de orientação junguiana com mestrado e doutorado pelo  Instituto de Psicologia da USP.
Deu aulas em algumas faculdades de Psicologia e ministrou cursos no Instituto Sedes Sapientiae. Estudiosa de mitologia, contos de fadas e psicologia feminina, há muitos anos coordena grupos vivenciais de mulheres e workshops sobre mitos.
 Atende como psicoterapeuta em seu consultório em São Paulo.
 Está para lançar o livro “Amor e separação: reencontro com a alma  feminina” pela Vetor editora.

 

 

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