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ORAÇÃO PARA A CASA por Noemi Jaffe

 

Deus, que está no céu, e que dizem ser onisciente, onipotente e onipresente: faça com que minha casa tenha muitos potes e que em cada um deles caiba uma tampa correspondente; faça também com que, em vários destes potes, haja um pedaço de torta de espinafre, uma fatia de pizza de muzzarela no máximo de anteontem e um resto de suflê de cenoura. Faça com que as roupas de lã não juntem bolinhas de pelo e que, se isso acontecer, que naquele momento eu tenha um daqueles rolos com velcro que é só passar e as bolinhas somem. Outrossim, peço também que haja um cachorro vira-lata e que ele não tenha muitas roupas, mas ao menos um agasalho e, este sim, poderá até juntar bolinhas de pelo. Não peço muitos banheiros, mas sim que em cada um  deles haja um recipiente apropriado para as escovas de dentes e que eu me lembre de trocá-las quando as cerdas cederem, porque acontece frequentemente que eu me esqueça. Que na geladeira haja, mesmo depois que eu volte de uma viagem, ao menos ovos, um resto de arroz, tomates e alguma fruta. E por favor, eu imploro, que essa fruta não seja maçã que, apesar de nutritiva, é uma fruta tão sem graça. Peço que sempre haja, nas gavetas do banheiro: uma pinça, duas tesouras de tamanhos diferentes, esparadrapo, band-aid, aspirina, soro e líquido de dakin. Admito que haja panes elétricas, pintura descascada e até rachaduras, mas por favor, eu lhe rogo, vazamentos não. Que numa tarde chuvosa de domingo, quando eu estiver sozinha e já tiver ido ao sacolão, corrigido lições e escrito duas resenhas, eu descubra, na prateleira do corredor dos quartos, aquele suplemento de jornal que eu vinha procurando há algumas semanas e que tem um artigo que eu queria tanto ler. Que a minha casa tenha uma bagunça mediana, não demais a ponto de inviabilizar o trânsito nem de menos a ponto de parecer inabitada. Que os documentos não fiquem espontaneamente mudando de lugar e desaparecendo das pastas e que haja pastas, muitas pastas, mas que eu me lembre de colocar nelas etiquetas indicando seu conteúdo. Que aqueles documentos desaparecidos combinem, uma vez a cada dois meses, de aparecer junto com as chaves, as meias e as fotografias do casamento dos meus pais. Rezo, enfim, Senhor, e sem negligência pelo móvel que há tanto tempo e tão fielmente me serve, que num dia, num dia nem tão distante, eu possa adquirir uma cama como a do hotel em que me hospedei apenas por uma noite em uma cidadezinha da California. De resto, meu Deus, agradeço-lhe com veemência que, logo aqui, a duas quadras desta que chamo de casa, mas que na verdade é como uma casca de mim, um ótimo estofador tenha aberto seu estabelecimento e que tenha consertado, com muito esmero e por um preço bastante justo, o meu sofá.

 


Noemi Jaffe é escritora, professora de  literatura brasileira e crítica literária.
Colabora com a Folha de S.Paulo e  escreveu Todas as coisas pequenas (Hedra), Quando nada está acontecendo
(Martins) e Do princípio às criaturas (CAPES/USP) entre outros.
Mantém o blog  quando nada está acontecendo:
http://www.nadaestaacontecendo.blogspot.com.br/

 

foto: João Bandeira

 

 

 

foto Banner: Elza Tamas

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