meucorpo

SEU CORPO, SUA CASA por Mary Jane Paiva

 

 

Muito se fala de corpo, não? Ele é chamado de corpo do pecado, da estação, da moda, de sarado, perfeito, e por aí vai. Mas, vou falar do corpo como casa, do corpo que você habita, em que você vive. E tomarei como base a ciência/teoria de W.Reich (1897-1957), psiquiatra e psicanalista,criador da psicologia corporal, que estudou o corpo,a mente, a energia; e a integração e relação dessa tridimensionalidade resumida no corpo. Reich defendia que o corpo doente é a fonte das doenças psíquicas. Difundiu a unidade funcional entre o físico e o psíquico, e a teoria de que o corpo abriga nosso ser e as histórias das nossas relações afetivas ao longo da vida.

A partir daí soube-se que desde a fase intra-uterina, quando nosso corpo era abrigado no de nossa mãe, dentro do útero (essa espécie de nave espacial que nos trouxe a terra, deu a luz, o início, o fim e o meio) nossa história vai sendo inscrita em nosso corpo, que é a casa de todos os nossos sinais gravados, como diz o italiano Dr.Gino Ferri, psiquiatra e analista reichiano. Ou seja, a forma como desenvolvemos nosso sistema neuroafetivo e como lidamos com nossa troca afetiva, a partir do útero até final da puberdade, define nosso caráter.

Até o temido e  comentado estresse pode ser resultante de tal fase, que influi ainda no quanto e como recebemos as gratificações que vão determinar nossa forma corporal, nosso comportamento e nosso jeito de agir e reagir na e à vida. Mas é claro, que um bom pai e uma boa mãe também exercem grande influência.

O fato é que existe sim relação entre o modo como você habita seu corpo e a forma como leva sua vida. Desde o útero não há nada que passe por sua vida sem passar pelo seu corpo, sabia? Com ele você sofre e goza, expressa o seu desejo, o seu medo, revela seu carinho,denota sua tristeza e todas as suas percepções, sensações e emoções.O corpo ainda pode suprir todas as suas necessidades e atender aos seus desejos. Nenhum sentimento,pensamento, sonho,projeto, criação ou realização existem sem o corpo. Isso posto, o enigma é: você pertence ao seu corpo, ou o seu corpo te pertence?

Para responder essa questão é preciso perguntar outras. Você sabe dizer como ocupa o seu corpo? Definiria o modo como vive nele?

magritte

Fica mais na cabeça, é mais racional ou intelectual? Se sim, isso quer dizer que usa muito o escritório do seu corpo. Mas, você se lembra de ir ao jardim? Como areja sua moradia, quero dizer, como você respira? Tem portas e janelas amplas? Ou a abertura é limitada e a respiração da casa presa onde o ar é mais denso e poluído? E como vai seu apetite? Come em excesso ocupando uma boa parte do seu tempo na cozinha? Você gosta de se mexer e se exercitar? Acha a sua casa (corpo) barulhenta e agitada? Ou calma e serena? Costuma convidar os amigos para te visitar? Como é a sua sala de visita ? Como você se organiza para receber pessoas em sua casa? Tem espaços para intimidade? Gosta de ficar em casa? Sente a sua casa confortável e aconchegante? Tem quintal ou jardim e gosta de tomar sol? Sente sua casa pequena, apertada e insegura? Quais são os bloqueios e defeitos desta casa? A rede de esgotos funciona? Precisa de reforma? Qual área é a sua preferida? Gosta de enfeitá-la e cuidar dela para que não se deteriore? É uma casa funcional que tem calor, movimento e inteligência afetiva?

Sim, o corpo é uma casa como a sua, que precisa de cuidados, lugar onde circula e flui energia. Se você possui dores crônicas musculares, logo sua casa precisa de manutenção. Frio? É bom aquecer o corpo com energia amorosa.  Mas é bom olhar para trás também. Para Existir, Querer, Escolher e Afirmar quem somos, precisamos de um bom desenvolvimento e funcionamento, de uma casa com uma boa fundação para que possamos explorar nosso potencial natural  e desenvolver nossa identidade.

A casa ideal, ou o corpo ideal, é aquela/ aquele com estruturas sólidas, calor, aconchego e ventilação. Mais: com um bom sistema de alarme que deve ser atendido a cada ressoar. É construída em um terreno seguro onde há sol, água e rede de esgotos, ou melhor, com garantia de dignidade. Possui uma etica  natural afetiva e   a estetica harmonica.E serve como lugar de possibilidades e alternativas para se viver o sentimento de humildade, humanidade e humor. E que analogicamente tenha cabeça, peito e pélvis relacionados e integrados que podem trazer como resultado a alegria de viver  e prazer.

Está tudo bem em sua casa?

 

Mary Jane A. Paiva  é psicologa clínica,  psicoterapeuta e analista reichiana. Diretora da  Sovesp(Sociedade de orgonomia e vegetoterapia de SPaulo ), escola coligada a  Siar (Escola italiana de Analise Reichiana).
Elaborou, fez a revisão científica  e o prefácio da edição brasileira do livro italiano  de Genovino Ferri e Giuseppe Cimini: Psicopatologia e Caráter -a psicanálise no corpo e o corpo na psicanálise).
Deu aula no Senac e no curso de Psicologia Reichiana no instituto Sedes Sapientae .

Escreve semanal sobre comportamento no blog:
http://ligia.tv/site/category/Comportamento

 

 

 

Foto Banner: Elza Tamas sobre o trabalho de Elad Lassry – Ghost

 

Comentários