zanine antiga residencia do arquiteto na joatinga, rio de janeiro foto hugo segawa

ZANINE! por Luís Antonio Magnani

 

Tive a oportunidade de passar um bom tempo visitando e documentando as  obras do arquiteto José Zanine Caldas, fazendo a curadoria de duas exposições a  seu respeito e com isso conhecendo mais de perto seus trabalhos e, talvez  porisso, sinta dificuldade em resumir o que foi sua colaboração para a arquitetura e o design brasileiros.

Registrar detalhadamente em livro o seu trabalho ainda é uma dívida que  temos para com ele e uma falha na nossa historiografia arquitetônica.

Talvez uma lista de realizações pudesse friamente tentar retratá-lo, mas  não seríamos justos com este baiano de temperamento explosivo, como relataram vários  de seus amigos, que conquistou seu espaço a custa de um trabalho intenso e um  talento desconcertante. Temos que falar mais calorosamente.

Trata-se de um personagem múltiplo, heterodoxo, um outsider, enfim, uma pessoa incomum. E como é bom poder falar de  pessoas incomuns num momento de mesmices.

Nas poucas conversas que tivemos, já na sua velhice, ouvi dele uma  explicação sobre as qualidades das madeiras que não me sai da memória. Ele as  comparava ao seu próprio corpo, as fibras, os ossos, o sangue, as veias, com  uma intimidade tal que as imagens chegavam a se misturar.

Zanine atuou num período memorável em que a arquitetura brasileira tinha repercussão  internacional. Éramos “modernos” ao nosso modo e o mundo gostou disso!

Não tendo formação  acadêmica, foi um autodidata.

Seu  trabalho promoveu a integração entre a experiência artesanal tradicional  brasileira e as descobertas da arquitetura modernista com grande adequação e  naturalidade. Também produziu móveis montáveis em escala industrial através de  sua fábrica “Z”.

No final  dos anos 60, interviu contra as práticas de destruição sistemática das  florestas, criando seus “móveis denúncia”, esculpidos em troncos resgatados das  queimadas nas áreas de destruição da Mata Atlântica.

Zanine foi  paisagista, construtor de maquetes, escultor, moveleiro e arquiteto. Dotado de grande habilidade em construir em harmonia com o ambiente, realizou obras em lugares paradisíacos do Rio de Janeiro. Casas debruçadas nos sensuais morros da Joatinga, cercadas de florestas com o mar gritando à janela.

Zanine amava a  madeira, e foi um dos pioneiros a utilizá-la de forma sistemática na  arquitetura, enquanto a corrente predominante dos arquitetos usava o concreto armado.  Construiu dezenas de casas para  artistas, intelectuais e personalidades em várias partes do Brasil.

Foi controverso. Os  corporativos quiseram impedí-lo de trabalhar pela falta do diploma, o que  causou a reação de Lúcio Costa que interviu por ele. Foi chamado de “Mestre da Madeira” pela elite intelectual e artística e recebeu medalha de prata da Academie  d’Architecture na França – onde morou e lecionou – e posteriormente o  título de arquiteto honoris causa  pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil como reconhecimento por sua obra.

Festejado  por mestres como Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Sergio Bernardes e Oswaldo  Bratke, formou, junto com Joaquim Tenreiro e Sergio Rodrigues a chamada “trindade” da madeira no Brasil.

Zanine é,  em sua polifonia, um brasileiro de agora. Seu trabalho não tem data. Suas obras  tem espírito. Sobreviverão ao tempo.

 

 

 

Luís Antonio Magnani é arquiteto e restaurador de bens culturais com especializaçao em Florença. Atuou nos restauros do Complexo daFigueira do Gasômetro de São Paulo, Planetário do Ibirapuera  e das escolas estaduais “Caetano de Campos” em São Paulo, “Instituto de Educação” em Pirassununga, “Cardoso de Almeida” em Botucatu e ”Orozimbo Maia” em Campinas, entre outros projetos. Coordenou o plano de Preservação do centro histórico de Pirenópolis. Atualmente desenvolve o projeto de restauro do Parque Modernista. Foi curador das exposições “Ver Zanine” e “A fábrica e o formão”, sobre a obra do arquiteto José Zanine Caldas.É coautor dos livros “Complexo do Gasômetro, a energia de São Paulo” e “Caminhos do Patrimônio Cultural – 3 roteiros em São Paulo”.

 

Links relacionados:

http://www.acasa.org.br/zanine/index.html

http://www.vitruvius.com.br/arquiteturismo/arqtur_02/arqtur02_02.asp

http://www.vivaocentro.org.br/noticias/arquivo/220208_a_click1.htm

http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL305531-5605,00-RESTAURADA+ANTIGA+SEDE+DA+COMGAS+SERA+ABERTA+PARA+VISITACAO+EM+SP.html

 

 

 

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