flavio cafieiro outra mensagem - ilustração 2

MENSAGEM por Flavio Cafiero

Ando ruminando, pensando fundo, tentando entender o que aconteceu,  mas não consigo. O primeiro detalhe em que reparei foi o jeito, semelhante ao  meu, de segurar o garfo: um jeito torto, com o punho quebrado para dentro.  Alguém segurava o garfo igualzinho a mim. Ou quase. Depois, o jeito de colocar  o cabelo para trás da orelha, diferente do meu, um jeito consciente demais,
como um golpe de luta marcial, um movimento único e preciso. Alguém colocava o  cabelo para trás da orelha diferente de mim. E outras descobertas vieram  depois, sempre à luz de mim mesmo, e me apaixonei. Eu me apaixonei por alguém.  Tudo bem rápido, um gole só. De repente, alguém. Quando dei por mim, acabou. O  quê? Acabou o quê? E por mais que rumine, pense fundo, tente entender o que acabou, e o porquê, não consigo. Então, dias passados, bem depois de algo  acabado, dei de ver alguém parado ali na esquina, logo ali, nos olhos  espremidos, na espera pelo sinal fechado, ensaiando o pedido de esmola debaixo  do sol. Muito estranho. No começo, quase subliminar. Dei de notar alguém na caixa do supermercado, no manejo úmido das notas,  no
estalo impaciente da  língua. E alguém cruzou comigo na saída do cinema, ontem, a cabeça acelerada na  frente dos passos, os olhos atentos ao contorno das pessoas e obstáculos,  naquele  cuidado cego para não trombar. Exatamente aquele. E por mais que rumine, pense  fundo, tente entender o que é exatamente, não sei. Dei de notar alguém lendo  revista sem ler, com o canto do olho jogado ainda mais para o canto, pescando  reações, colhendo as admirações, os nacos de atenção que as pessoas soltam sem  alguém olhando. Sabe como? Assim. Dei de reconhecer alguém nas    fotografias, exposição  itinerante, campanha publicitária, cartaz de procura-se, as assimetrias  eternizadas, o defeito do nariz de alguém, que agora virou defeito, como alguém  sempre insistiu que fosse, e os cachos mal cuidados que antes, para mim, eram  ecos de minha própria informalidade. E alguém, agora, me acompanha. Assim, sem  razão, mas com passos muito particulares, nem parecidos nem diferentes dos meus.  Assim, passos, como se antecipasse os meus, como se espionasse meu diário, descobrisse  onde vou, como se eu escrevesse um diário. Como uma cigana que lesse minha mão.  Sabe como? Como se eu acreditasse em cigana. Alguém caminha a meu lado, como se esperasse  tudo de mim, e me seguisse na rua. E sigo ruminando, pensando fundo, tentando  entender. Estou embaralhado no mundo, é esta a imagem. Não há referências  conhecidas, tudo se transformou em  alguém. E agora? No escritório, por exemplo: alguém deu de olhar na minha direção, diariamente, como se soubesse, como se me enxergasse  embaralhado no mundo, e é assustador. E agora que alguém foi embora, digo, aquele alguém físico, alguém de pegar na mão e de sentir o cheiro, alguém de palavras e acenos reais, dei de ver alguém em todos os cantos, alguém aqui, e ali, cada vez menos espelho, cada vez mais outra coisa, esse alguém. Estou ruminando, pensando fundo, tentando entender. Não consigo. E se por acaso, ou por esforço, alguém entender minha letra, entender minhas intenções, ou mesmo sem entender  nada e sentir um impulso, qualquer mínimo impulso de me procurar, que mande um sinal, que envie um recado, ou anuncie na tevê, no mural do estacionamento, ou grite da janela, ou chegue mesmo de surpresa lá em casa, ou me aborde em uma sala de espera qualquer. Quem sabe eu olhe alguém com certa curiosidade, procure o traço mais particular, o gesto peculiar, reconheça em alguém o tom de voz mais específico de todos, e quem sabe eu esqueça de mim, um pouco, um pouco só, e me deixe embaralhar de vez. Vá que isso aconteça e que alguém ganhe um nome, mereça um nome, não deixe que eu rumine, pense fundo, e vá que eu diga a alguém: fica, fica
mais um pouco, que eu não me aguento.

foto banner:  Fernando Azevedo

 


Flavio Cafi
ero é carioca de nascimento, paulista por quilometragem. Tem um diploma de publicitário guardado em algum canto. Um dia foi gerente, por um desses acasos. Hoje é desempregado por opção, mas nem tanto.
Ator por tentativa e erro, tem medo de subir no palco. Gosta de ser deixado quieto e, por isso, escreve mensagens. Pendura uma ou outra na internet.

www.flaviocafiero.blogspot.com.br

 

 

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