chaves

O FATOR LETAL por Elza Tamas

 

Toda noite o pássaro preto entra na minha sala, faz um voo rasante e some. Tudo  rápido, fugidio, um piscar de olhos. Só acredito porque se repete. Toda noite  ele volta e eu me assusto. Acho que ele me visita, porque a mãe dele morreu.

Toda manhã o barulho dos saltos impertinentes da vizinha do andar de cima. Eu não a conheço,  nunca a vi, mas admito o efeito que sua ação produz: me acorda,  me deixa de mau humor e cheia de discursos  internos chatos  sobre a incivilidade humana.
Agora gasto um tempo precioso, os primeiros momentos da manhã- antes dedicados a alongamentos e meditação- pensando em como posso me vingar.

Eu não tenho como conhecer o conteúdo da minha mensagem a não ser que ela me seja reenviada, nem que seja sob  a forma do silencio.
Nem se ouvem as asas, ele nunca mais me ligou.

Se o outro é  estranhamento, o estrangeiro, o que se distingue  por essência ou circunstância, ele também é o olhar  inclemente que sempre nos conta sobre nós. A vizinha, o pássaro, o silencio. Atravessamentos.  É no encontro e no desencontro com o outro que posso conhecer mais sobre o limite da minha pele, a extensão interna de mim mesma.  Outorgo ao outro uma chave atávica, minha , mas que vivo ilusoriamente como se fosse  dele.
A tragédia humana – necessito do outro para saber quem eu sou.

 

 

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