Tabaimo (2)

PALESTINOS E ISRAELENSES SE APOIANDO MUTUAMENTE NA DOR por Roberta Wall- versão bilingue

 

Cinquenta mulheres e jovens se reuniram novamente para um final de semana de trabalhos no EcoME na região do mar Morto. Quero escrever sobre um momento deste final de semana que ainda está tão presente comigo, que  escrevo com meus olhos cheios de lágrimas.
Na minha cabeça este momento aconteceu quando estávamos todas sentadas em círculo e vimos e ouvimos os soluços de uma das participantes, uma mulher palestina.
Eu vejo este momento como o núcleo do treinamento em Comunicação Não Violenta que realizamos aqui. Como podemos de forma plena e incondicional ouvir e sentir a dor do outro sem abrir mão  de alguma coisa nossa? Estejamos nós com nossos esposos, filhos, colegas de trabalho ou pessoas de
grupos dos quais geralmente mantemos distancia, como podemos desbloquear nossos corações e ouvidos e nos conectar profundamente com
a experiência deles, sem  medo de estarmos abrindo mão de alguma coisa?
Seus soluços surgiram depois que ela compartilhou quão doloroso fora para ela ouvir o trecho do kiddush*, na manhã do Shabbat, que celebra o fato dos judeus serem os escolhidos de Deus. E quando ela ouviu isso, em um círculo do qual fazia parte, ela pensou sobre toda a discriminação, dor e sofrimento dos Palestinos dentro e fora de Israel.
Imediatamente, vi olhares de horror, tristeza e desalento nos rostos de várias religiosas judias que participaram do kiddush.
Vi que algumas das mulheres judias queriam confortar a mulher palestina e também queriam explicar a ela que não tinham intenção de machucá-la. Uma das mulheres começou a soluçar, outra se apresentou e compartilhou que a ultima coisa que ela queria fazer era machucá-la, e como se sentia mal com isso.
Este é momento de força da comunicação não violenta.  Como podemos acolher a dor, nossa e do outro, sem tentar explicá-la ou resolve-la, sem  nos tornar defensivos ou agir como se tratasse da nossa própria dor? Como fazemos isso?
Arnina, uma das facilitadoras do NVC, sustentou este espaço de empatia perguntando a à mulher palestina: você esta chorando por toda a dor que está aqui?
Seus soluços ficaram mais altos. Os soluços da mulher judia também aumentaram. Uma outra mulher judia foi até ela e disse como se sentia mal, muito mal. E os soluços aumentaram ainda mais.
Arnina perguntou, é assim tão doloroso para você imaginar que suas palavras podem causar dor? Sim,muito.
Eu ouvi os seus soluços e tive a sensação de que estava ouvindo o lamento de uma irmã, uma irmã palestina, acima
de toda a dor que havíamos causado uma à outra.
A manifestação da expressão do sofrimento do “outro lado”  pela qual todas ansiavamos aqui. Lágrimas  que estavam acima do sofrimento do “meu” lado e do “seu” lado.  Lágrimas que dizem: chega! não mais. Que dizem, eu não quero compactuar com isso. Não quero que  isso continue. Dizem “eu sinto o mais profundo e intenso pesar por tudo”. Eu percebi que todos ali ansiavam para qu tudo acabasse. O verdadeiro sofrimento por todo o mal que vem sendo feito em nossos nomes.
E eu estou sentada agora, em Ein Kerem, numa casa adorável, construída a partir de uma edificação árabe, agora o lar de uma mulher judia que veio aqui para agrupar pessoas através da musica, palestinos e israelenses, crianças e adultos, e eu me pergunto,- assim como  fiz no treinamento de  NVC* – como podemos esperar que as pessoas que estão aqui e que não são  judias, acreditem que quando dizemos “que somos os eleitos”na  nossa reza, não  estamos fazendo isso com a intenção de machucá-las, mas o fazemos apenas para celebrar a nossa tradição? E isso na verdade é de fato tão inocente? Não temos a responsabilidade de olhar no cerne da nossa tradição e ver os efeitos  dela no mundo atual?
Uma das minhas professoras do NVC, Miki Kastan (irmã de Arnina) diz que a empatia não flui com facilidade. Quando um lado detém o poder sobre o outro, é muito difícil a empatia flua daquele que a detém. Então eu me pergunto, não é demais pedir para as pessoas que vivem submetidas às regras militares do estado judaico acreditarem que não queremos fazer nenhum mal,  quando celebramos que somos o povo eleito por Deus? E sendo, assim como podemos sair disto?
Nós mudaríamos a observância do nosso ritual de forma que ele se alinhe com um outro preceito (mitzvah) –  aquele de não causarmos danos aos outros ? Ou somos cuidadosos o suficiente quando ensinamos nossas crianças o significado disso, como foi dito por uma mulher  no retiro, que os
judeus são os escolhidos para desempenhar o mitzvot– os preceitos – e que fazendo isso, estamos contribuindo para trazer uma  maior paz e luz para todo o mundo?  Não é uma questão de ser mais que os outros, é uma questão de estar à serviço.
Mesmo se escolhermos fazer as nossas observâncias privadamente ou não, qual é a nossa responsabilidade? Como podemos ter certeza que
os nossos rituais religiosos realmente estão a serviço dos mais altos ideais para todos?
E onde está a linha entre querer que as pessoas concordem umas com as outras, com as interpretações e histórias do outro – e apenas alcançar  o nível do cuidado, aceitação e valorização, um do outro, que seja suficiente para criar paz verdadeira e elevação de todos nós?

 

*kiddush- reza do vinho e do pão, realizada no shabbat .

 

foto banner: elza tamas,  sobre o trabalho de  TABAIMO- teleco-soup – bienal de Veneza
tradução:Elza Tamas  com revisão de Sylvia Beatrix Pereira

 

Roberta Wall é advogada, mediadora, trainer, mãe, ativista,  praticante de mindfulness e coach. Divide o seu tempo entre Israel e os Estados Unidos. Com seus parceiros em Israel e na Palestina, treinou centenas de pessoas de diferentes comunnidades no Oriente Médio. Seus workshops e retiros são inspirados em Comunicação Compassiva Não Violenta( NVC)  desenvolvida pelo Dr. Marshall Rosenberg , mestres budistas como  Thich Nhat Hanh e o Dalai Lama, e por professores e rabinos da sua tradição de raiz, judaica.

http://robertaindia.wordpress.com/

E:mail: [email protected]

 

 

 

Palestians and Israelis Holding Each Others’ Pain

 

Fifty women and girls gathered together again for a weekend at EcoME in the Dead Sea region.
I want to write about one part of the weekend that is still so present with me that I am writing with tears in my eyes.

In my mind is the moment when we all sat together in a circle and watched and listened to the sobs of one of the Palestinian women participants.

I see this moment as at the core of the Nonviolent Communication trainings here. How can we fully, unconditionally, hear and feel the pain of others–without giving up anything of our own. Whether we are with our spouses, children, co workers, or people from groups we usually stay away from, how can we unblock our hearts and ears and bring ourselves into full connection with their experience-without that fear that we give up something.

Her sobs came after she shared how painful it was for her to hear the Jewish kiddush on Shabbat morning- the part of the kiddush that celebrates that Jews are chosen by God. That when she heard this, in a circle that she was part of, that she thought of all the discrimination and pain and suffering of Palestinians inside and outside of Israel.

Immediately, I saw looks of horror, sadness and dismay on the faces of several of the religious Jewish women who had participated in the kiddush.

Immediately I saw that some of the Jewish women wanted to comfort the Palestinian woman and also wanted to explain to her that they meant no harm. One woman began sobbing, another reached out and shared how hurting her was the last thing she wanted to do, how horrified she felt.

This is the moment of the power of nonviolent communication. How can we stay with each others’ pain, without trying to explain it away or fix it or get defensive or make it about our own pain? How do we do that?

Arnina, one of the NVC facilitators, held this space of empathy by asking the Palestinian woman, are you crying for all the pain that is here.
Her sobs grew louder.

The sobs of the Jewish women grew louder too. One Jewish woman went to her and said how terrible, terrible she felt,

Her sobs grew louder.

Arnina asked, is it so painful for you to imagine that your words could cause pain?

Yes, more and more.

I listened to her sobs and I had the sense that I was hearing the grief of a sister, a Palestinian sister, over all the pain that we have caused each other. The outpouring of grief from “the other side” that everyone yearns for here – tears over the suffering on “my” side AND “your” side. Tears over the suffering. The tears that say, enough. No more. That say, I don’t want to be a part of this. I don’t want this to go on. That say, I feel the deepest intense grief over it all. All of it. I felt the deep yearning in everyone there for an end to it all. And the real grief over all the harm that is being done and that has been done in all of our names.

And I sit here now, in Ein Kerem, in a lovely house, built onto an old Arab house, now the home of a Jewish woman who has come here to bring people together through music, Palestinians and Israelis, children and grown ups, and I wonder, as I did at the NVC training – how can we expect people here who aren’t Jewish to trust that when we say chosen people in our kiddush we aren’t doing it to hurt anyone, that we are just doing it to celebrate our tradition? And is it true that it is so innocent? What is our responsibility, to look even at the heart of our tradition and see its effect in the current world?

One of my NVC teachers, Miki Kashtan (Arnina’s sister!) says that empathy doesn’t flow upwards very easily. When one side is holding power over the other, it is so hard for empathy to flow up to the holder of power. So I ask, isn’t it too much to ask of people who are living under military rule of the Jewish state to trust that we mean no harm when we celebrate that God has chosen us? And if it is, how do we move forward?

Do we change our ritual observance so that we are in alignment with another mitzvah – of doing no harm to others? Or do we take great care to teach our children that what we mean by this is, as some women said at the retreat, that Jews are chosen to perform the mitzvot- and that by so doing, we are contributing to bringing greater peace and enlightenment to all the world? It is not about being over others; it is about being in service.

And can we celebrate this in a way that inspires us to truly put ourselves in service of peace and justice?
What is our responsibility, whether we choose to only do our observance in private or not- how do we make sure that our religious observance really does serve the highest good for everyone?

And where is the line between wanting people to agree with each other, with each other’s interpretations and stories- and just coming to the level of care and acceptance and valuing of each other that is enough to create true peace and elevation of all of us?

This is our work. This is our life.

 

Roberta Wall, lawyer,  mediator, trainer, parent, activist, mindfulness practitioner and coach, shares her time between Israel and the United States. With her partners in Israel and Palestine she has created trainings for hundreds of people from diverse  communities in the Middle East.  Herworkshops and retreats are inspired by Nonviolent Compassionate Communication (NVC) as developed by Dr. Marshall Rosenberg,  Buddhist teachers Thich Nhat Hanh and the Dalai Lama, and by teachers and rabbis from her root Jewish tradition.
website: www.steps2peace.com. E:mail: [email protected]

 

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