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QUALQUER DIA DESSES EU CAIO EM SI! por Sergio Zlotnic

1- Fico espantado com a loucura  das pessoas, destrambelhadas em seu mundo e tão convenientemente  adaptadas às suas próprias incongruências. A autoimagem sempre benevolente para nunca ferir a  vaidade. Eventos vergonhosos ganham versões condescendentes, quase distorcidas.
Não totalmente distorcidas somente para que o sujeito possa sustentá-las baseado  em ‘argumentos’.
Abandonos humilhantes se modificam convertendo-se em posições  éticas cheias de propósitos elevados; mesquinhez transforma-se em  dádiva; incompetência e falta de esforço se transmutam em ‘opção’ ou crítica  social; o pior defeito vira artigo de exibição e vantagem… Talvez ninguém
sobrevivesse se pudesse se enxergar como realmente é, livre de atenuantes.

Por muito tempo, achei que deveria avisar, sem desconto, da verdadeira versão da história,  da qual o  sujeito se protege, do verdadeiro rosto do amigo, de seu pior ângulo. Achei que  seria um bom serviço para a humanidade, doar a verdade aos outros, especialmente  àqueles  com quem me importo. Seria ‘terapêutico’. ‘Analítico’! Demorei a me dar conta que isso só fazia  aumentar a lista de ex-amigos, que ninguém quer saber da  versão comprometedora, sobre a qual generosa e gratuitamente me propunha a  alertar. As pessoas se sentem agredidas ao serem informadas  da nossa real  percepção. Querem palavras doces, enganadoras, complacentes, hipócritas,  mantenedoras da ordem.

Mas há exceções, poucas, pouquíssimas, há quem reconhece rápido qualquer deslize pessoal, e diz a frase  redentora, única saída digna: “que horrível que eu sou!”. Pessoas que suspeitam  de si são as melhoras. As que têm dúvidas e não certezas. Pois, na maioria das vezes, o cardápio é a teimosia de versões benignas relativas a fatos  estapafúrdios.
“Não me sinto orgulhoso disto”, é o máximo que se ouve de alguém, ao referir-se a alguma falta feiíssima de sua autoria! ‘Eufemismo’ é o nome, não?
Trata-se de suavizar, atenuar, acolchoar o peso das coisas; no dicionário, substituir uma palavra rude [ou desagradável ou grosseira] por outra, educada. Não raramente, entretanto, nessa operação, a verdade escoa pelo  ralo: o bebê vai embora junto com a água do banho… Vai o anel, e o dedo também.

Já comigo, creio que isso não se aplica, pois minha mãe sempre diz que sou bonito e bonzinho. Mesmo assim, confesso que o mundo não tem sido tão justo comigo.

2- O Outro é inatingível, embora a gente se esforce!
O Outro é impossível de metabolizar. Ele faz vinculação com o traumático, com o irredutível à mesmidade.
O Outro habita o território complicado da outridade. Por ser singular de maneira cabal, o heterogêneo esmagaria o sujeito que busca percebê-lo. De fato, a percepção precisa ser sempre secundária: na teoria da psicanálise, o recalque primário dá conta desta questão. Atravessada pela história do sujeito, e pelo seu desejo, a percepção é enviesada desde o princípio. Para os humanos, assim, os objetos do mundo são objetos ‘para-si’ e nunca ‘em-si’.

3- Kiwi! Em 1987 não havia kiwi. Pelo menos eu nunca tinha ouvido falar. Cheguei na casa de um amigo e vi em cima da mesa um croquete peludo. Isso é um kiwi, disse o amigo. Ao abri-lo, notei que parecia um pepino.  Ao experimentar, o gosto era de morango. ‘Você perdeu a chance de apreciar o kiwi em sua singularidade’, disse o amigo. ‘Ao recobri-lo com o já-sabido, não apreciou esta fruta na sua especificidade…’. Mas como fazer se eu tenho uma história da qual não escapo?? [hoje esse engraçadinho metido a filósofo da epistemologia é ex amigo].

4- Disse Freud: ‘todo aquele que não teve sua necessidade de amor inteiramente satisfeita, está fadado a dirigir-se a cada novo objeto com  ideias libidinais antecipadas’. Não seria esta uma boa definição do fenômeno da  transferência?
Precisamos recobrir o mundo com camadas de redundância para  torná-lo palatável! O Outro é aquele que não obedece ao script que escrevemos. É aquele que constantemente nos expulsa de um lugar de conforto. Desmancha-prazer. O mundo é habitado por um bando de desaforados!

5- A propósito, disseram os poetas:

If you had no name

If you had no history

If you had no books

If you had no family

If it were only you

Naked on the grass

Who would you be then?

This is what he asked

And I said I wasn’t really sure

But I would probably be

Cold

And now I´m freezing

Freezing.

From Philip Glass and Suzanne Vega.

 

foto banner: Elza Tamas

 

Sergio Zlotnic é psicanalista, doutor em psicanálise pela USP e colunista mensal do portal da SP Escola de Teatro. É professor do curso ‘diálogos psicanálise/teatro’ na mesma escola e pesquisador de temas que conectam o campo das artes e as contribuições freudianas.

 

http://www.spescoladeteatro.org.br/colunistas/06.php

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