Fernando Araujo - futebol (2)

A FILOSOFIA DAS CHUTEIRAS por Claudio Mello Wagner

 

 

Vou fazer uma revelação: Henri Bergson jogou  futebol. E mais, jogou no meio de campo, aquela zona da cancha onde o cérebro  intui, reflete e calcula o lançamento preciso e fatal. De resto, o futebol são  músculos e pulmões cumprindo seus desígnios. Não fosse o futebol, e Bergson jamais teria feito a distinção entre tempo e duração. Me explico.

Passei minha adolescência e juventude  correndo atras da bola, das meninas e do rock and roll. (As meninas e o rock,
deixo para uma outra oportunidade). Enquanto corria, vivia uma experiência  inusitada com o tempo. Nas peladas (ops! meninas e rock, depois), o tempo só  contava quando o zelador da quadra apagava os refletores. A intensidade e a  duração eram prazerosamente eternas. Já nos jogos de taça …

Quando o senhor de preto apitava, corriam os  jogadores, corria a bola, corria o relógio. Todos em direção à fatalidade: o
fim do jogo. Apesar disso, a duração do tempo variava, dependendo de como  andava o placar. Era só estarmos ganhando fácil e o tempo passava rapidão.
Ganhando suado, parecia a fila da vacina na infância: um suplício interminável.
Quando as coisas não iam la muito bem, negociava com Cronos e pedia só mais uma  jogada (como o cavaleiro d’O sétimo selo). Agora, quando estava tudo pra la de  ruim, queria mais é que o tempo passasse logo e acabasse com aquele vexame.

Aos poucos fui aprendendo que o prazer do  jogo está na sua duração. E que o resultado é mera distração para a platéia.Também
aprendi que quem entra em campo, saboreia a intensidade e a duração de estar  vivo. E quem não entra, aplaude e vaia, se orgulha e se envergonha, da vida dos  outros!

Deixei de lado os jogos oficiais e hoje só  jogo peladas. E pra mim pelada é coisa séria, onde só participam os amigos  compromissados com o prazer da ética e da estética de mais uma bela jogada. Até  que o zelador apague as luzes…

Em tempo: Não sei se Bergson jogou na  seleção da França, mas no campo da filosofia ele bateu um bolão!

foto Banner: Fernando Araujo

 

Claudio Mello Wagner é psicólogo, Dr.  em Psicologia Clínica, Psicoterapeuta.
Autor dos  livros: Freud e Reich: continuidade ou ruptura (Summus);  A Transferência na clínica reichiana (Casa do
psicólogo);  Futebol e orgasmo (Ed. do  autor).
[email protected]
 (11) 36756144

Comentários