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TRES TEMPOS E DUAS HISTÓRIAS DE AMOR por Elza Tamas

1) Os gregos têm duas divindades para designar o tempo. O primeiro reina  linear, mensurável, implacável, o tempo do  calendário que engole os dias, as semanas, as flores do jardim, esbranquiça meus cabelos, o tempo tic tac insuportável do  relogio da casa da minha avó, que  na infância me dizia – nunca mais, nunca mais, nunca mais.
Eu tinha 6 anos de idade e Kronos já me avisava que ia me devorar sem piedade.

2) O segundo, Kairós é tempo do instante preciso, a oportunidade, a experiência vivida, a não separação, o mergulho.
Quando estamos realmente envolvidos em alguma coisa, desfrutando da qualidade de um momento, estamos sob a égide de Kairós.  Kairós é calvo e tem um topete  na frente da testa. Fugidío e rápido, anda sempre sem roupas, passa despercebido a  olhares menos atentos e só é possivel  agarrá-lo pelo cabelo.  Uma vez  que ele tenha passado,  a oportunidade foi perdida,  e é impossível trazê-lo de volta

3) Se eu deixasse cair o copo de vinho que seguro agora na mão, o momento preciso em que isto ocorreu, somado  a  minha história, ao sentimento interno que permitiu que o copo caisse e ao gesto involuntário de todo meu corpo na tentativa de ampará-lo antes que ele se despedacesse no chão; e se eu fosse capaz de ler o mosaico desordenado de cacos  que se formasse entre a espuma avermelhada desperdiçada, eu conheceria o meu destino.
Cada fenomeno está grávido da qualidade do momento, cada instante antecipa o próximo passo.
Este é principio das técnicas divinatórias: a borra de café, o I Ching, o tarô, o jogo de buzios. Sujeito e acontecimento interdependentes numa relação não causal, mas repleta de significado. O tempo sincronico que  antecipa  o futuro.

I) Eles resolveram morar juntos. Celebramos com um pequeno jantar as vicissitudes ultrapassadas  e a soberania do amor. Ganhei flores e um   sabonete cubo lavanda, a provence todo dia no meu banho. O sabonete era ainda uma lamina fina, quando ela voltou com  as malas, os móveis, uns pedaços de sonhos.

II) Julie e Luca  prenderam  um cadeado numa ponte da cidade de Lyon, na França.
Um  gesto simbólico do  que eles sabem e  sentem verdadeiramente – me garantiram: que o amor deles é para sempre e que nada, nunca, poderá separá-los. A chave foi jogada no Rio Saône.

foto banner : Elza Tamas 

 

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