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MINIMO MULTIPLO COMUM por Elza Tamas

 

Por falta de chão, acabei me apoiando nas estrelas.Elas me enganaram e ele achou que eu era mística.
Depois tentou consertar: mística não, talvez meio excêntrica.Vi minha cabeça enorme, solta, em fuga tangencial, vagando frenética no espaço, sem chance de reencontrar o eixo do bom senso. Você é fora da curva, isso é um elogio ele disse, é inteligente, rápida,  preferia que você me achasse bonita, mas você  é linda,  e ainda tentando reparar o desencontro que se instalava tentou algo mais concreto, ele é matemático,  e começou a falar de teoremas, e  de catetos e hipotenusas, e números  e letras ao quadrado.
Eu tinha delirado beijos ao cubo, João Bosco tocando e cometas no céu da minha boca, mãos com trinta dedos ágeis enfeitando a noite,  nossos corpos confundidos elevados à potência que só o desejo poderia produzir.
Mas não, seus lábios se moviam desencontrados do texto esperado, do meu, do dele, tudo tenso, a contração e o medo nos reduzindo à categoria de um filme B. Ele me olhava como se eu fosse uma maça, não mais  a do Éden,  vermelha suculenta, mas  a  do Newton, sem graça, fadada ao chão. Nossa historia afetiva ia  sendo capturada pela gravidade, tudo era pré-determinado,  já não flutuaríamos mais.
Na porta, saindo ele ainda disse: nós dois gostamos de café sem açúcar, e riu.  Demos um abraço pálido; meu mundo se precipitando,  partículas desencontradas para todos os lados  e  ele tentando achar nosso mínimo múltiplo comum.

ilustração banner : Milton Rodrigues Alves

 

 

Elza Tamas idealizou e desenvolve este site

www.forademim.com.br

 

foto: Mario Bock 

 

 

 

Milton Rodrigues Alves é ilustrador  e trabalhou como editor  de arte na Folha de São Paulo, Revista Veja, Superinteressante. Foi diretor de arte da TV Abril. Há 25 anos  dirige sua própria empresa:  Casa Paulistana de Comunicação.

www.casapaulistana.com.br

 

 

 

 

 

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