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A BOCA por Paloma Zaragoza

 

 

Desde o dia em que comemos a maçã proibida do paraíso, nós mulheres, somos perseguidas pelo pecado. O fatal erro de comer algo que não nos era de direito mudou o curso do universo e para todo o sempre devemos ao destino um ‘não sei o que” eterno. De sub produto da costela à jornada tripla ( trabalho, casa e filhos), nos entregamos de cabeça baixa e humildemente completamos cada uma de nossa obrigações de peito aberto, afinal, lá trás prendemos o rabo na árvore da serpente. A sensação de que sempre falta algo para a perfeição pode se refletir de diversas formas: desde a força tarefa de juntar os pontos como mulher perfeita, mãe ideal e funcionária exemplar, como algo mais externo: o corpo perfeito das incansáveis e redundantes revistas da moda, a roupa do momento e a eterna juventude. Enquanto ficamos horas malhando o corpo e comprando tratamento estéticos parcelado em sites de compra coletiva, secretamente devoramos caixas de bis, choramos quietas no travesseiro e fumamos cigarros no banheiro escondidas dos filhos.
Nem sempre o proibido é mais gostoso. O feminismo político tirou as mulheres do lares e nos jogou num mundo onde  tivemos que abraçar e honrar todos aqueles sutiãs queimados> Hoje esse mesmo feminismo luta contra coisas mais efêmeras como dietas, anorexia, plásticas e consumismo. Porque tanta dieta e tanta salada,  se a noite em casa queremos mesmo um bom prato de macarrão? A sociedade controla até o tipo de arroz que colocamos no prato e se você não for o tipo que calcula calorias  vão te dizer então que é melhor tirar o glúten ou o ovo ou o molho da salada. No universo da gastronomia acontece a mesma coisa, enquanto o número de chefs ( mulheres) cresce, abrindo restaurantes, ditando moda nos pratos temos por outro lado mulheres famintas querendo encher suas cumbucas com as maiores delícias.
A moda da gastronomia, que inunda o instagram e facebooks da vida com fotos de comida e pessoas comendo  pratos maravilhosos,  nos deu a chance de mostrar que sim, olha só, além de tudo somos como você e mais: comemos com mais voracidade aquele prato de feijoada. Acompanhando de perto a glutonice social, mesmo de pessoas que mal conhecemos,  encorajamos mais pessoas a acreditarem que comer bem não é na realidade um pecado e sim uma celebração.

foto: Marcus Nilsson

Trabalhei 45 dias produzindo um evento em qual o tema era bacon, essa palavra proibida, um sacrilégio desde os tempos mais primórdios. Foram 45 dias pensando, trabalhando, pesquisando e eventualmente comendo tudo o que se relaciona com este produto e não, não engordei, não tive um ataque do coração e tampouco fiquei deprimida pela dieta que não pude fazer. No dia do evento que além de tudo harmonizava cervejas ,não havia lá uma orde de homens barbudos, mas sim mulheres dispostas a atacar cada pratinho que saísse fumegante da cozinha.Vi mulheres divertidas, sorridentes, com seus namorados ou namoradas ( hoje o mundo é assim!), comendo e bebendo e sendo felizes. Tenho certeza que no dia seguinte, domingo, ainda festejaram mais um pouco em algum restaurante da Vila Madalena e que hoje, segunda feira, estão sentadas em suas mesas de trabalho sorrindo por dentro e pensando em como tudo isso foi bom.

 

 


Paloma Zaragoza 
Comecei a cozinhar quando ainda morava em Goiânia, uma forma de tomar minhas tardes de fim de semana e reunir os amigos no melhor lugar de todos: minha casa. Formada em jornalismo resolvi seguir os estudos em gastronomia e me especializei na área. Hoje posso dizer que sou uma pessoa de barriga e alma feliz por ter encontrado na gastronomia um espaço para celebrar o amor que tenho, tanto pelas letras quanto pelas panelas.

www.comomelocomo.com.br

 

 

foto: Zeno Mainardi

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