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A FITA BRANCA DE HANECKE por Marcia Tiburi

 

A Fita Branca do austríaco Michael Hanecke tem “o proibido” como sua  lógica de fundo. Quem o assistiu percebeu que os autores dos crimes em torno  dos quais se constrói o roteiro, eram o efeito de um tipo de educação que  implicava em sua performance, ou seja, no modo de atuar de seus agentes, uma  lógica conhecida de todos nós.  Aquela  lógica da hierarquia em que está em jogo a submissão de uns a outros e, às  vezes, alguma forma de revolta dos submissos no grande jogo de poder a que se  reduz a espécie humana.

Esta lógica implica, por exemplo, a desigualdade de classe. Mas também a de gênero.
No caso do filme, demonstram-se estes aspectos, mas surge um outro mais surpreendente e pouco trabalhado na sociedade em geral: aquele que se refere à desigualdade entre  gerações. Será, assim, a questão da “idade” o locus onde desaguará o sentimento de horror aos crimes cometidos.
Se a autoria dos crimes é do grupo de crianças, percebemos no desenho verossímil  feito pelo diretor do filme, que os adultos são a origem do mal. São a origem  do que, deste horror indizível, é o efeito de “mal estar” causado por eles  mesmos. A infância e a juventude nada mais são do que a revolta contra uma  lógica pela qual não podem ser responsabilizados justamente por que não são  origem do mal que cometem. Os adultos são os verdadeiros irresponsáveis, são de  certo modo, infantis, por que não querem aceitar o efeito daquilo que produzem.

O proibido, portanto, não é senão o efeito de uma lógica. Esta lógica se caracteriza por um  acordo. Este acordo é aquele que se dá entre o que, desde Freud, chamamos de repressão,  ou aquilo que não se pode ou não se deve fazer, sobre o qual a sociedade e o que  ele chamava de “super-eu” tem controle; e o recalque, aquilo ao que não se tem  acesso de modo algum, aquilo que não sabemos de nós mesmos.

O recalque diz respeito a uma interdição como que ancestral. Está perdido no tempo.
A  repressão precisa ser exercitada diariamente. Dizer que surge uma prazer da  repressão, ou concordar com o senso comum que inventa a “verdade” de que “tudo  o que é proibido é mais gostoso” é tão superficial quanto dizer que os  “limites” são educativos. Se fossemos discutir isso, o que não cabe no espaço  deste artigo, teríamos que começar por definir o que são “limites” e quem teria  o direito de construí-los. Falamos das crianças e dos jovens, mas sabemos muito  bem que o capitalismo trata o consumo como a inversão do proibido em prazer  perverso. Os adultos (pais e professores) de nossa sociedade são idênticos aos  adultos do filme: oprimem as crianças como se estas fossem pequenos animais  escravizados. Enquanto isso se permitem perversões que proíbem às crianças. Ao  mesmo tempo, educam pela frieza e pela repressão aqueles que, no futuro, serão  idênticos a eles. Maus e vis. A lógica do proibido é usada pelos adultos contra  as crianças, ao mesmo tempo vale os adultos não fazem nada de diferente do que  as próprias crianças. O proibido é justamente o permitido quando a liberdade  não é mais do que uma sombra da própria miséria espiritual. Neste sentido, a  vida adulta é a mera sombra da infância e vice-versa.

Dialética entre perversão e recalque 

Repressão e recalque são, assim, como espessuras diferentes no fio único do proibido.
A  corda em que se amarra a moral até o enforcamento da condição humana. O  recalcado é a parte mais fina, sedosa até, como a teia de aranha que se une gradativamente  a uma cardação mais grossa sem solução de continuidade. A delicadeza do  recalque nos faz sentir nojo e um profundo mal-estar, muitas vezes,  inexprimível. A brutalidade da repressão nos faz sentir uma raiva mais simples. Pela repressão somos capazes de nos vingar, como a menina do filme, a perversa e, no entanto, delicadíssima filha do pastor, que mata o passarinho do pai com uma tesoura.

Pelo  recalque somos capazes de cometer atos infinitamente mais loucos, justamente  porque incompreensíveis, como maltratar uma criança com problemas mentais. A  lógica do proibido implica a dialética entre a  compreensão e a incompreensibilidade das coisas.

É que, por incrível que possa parecer, a repressão tem linguagem.
Ela constrói o proibido  nos deixando saber o que ele é. No filme, por exemplo, a linguagem da repressão  aparece  no discurso do pai que proíbe o filho de masturbar-se amarrando suas  mãos à cama.  A  linguagem do recalque, porém, é muda. Dizer linguagem é apenas um  jeito de se referir à mudez. Ela está, por exemplo, no mal estar finamente  inoculado pelo pastor no próprio filho, quando, na mesma conversa, ele conta  uma história terrível sobre outro garoto masturbador que teria, em função de  sua prática, definhado à morte. A masturbação, sabemos desde Foucault, era uma  prática monstruosa naquela época e, para muitos, é até hoje. Mas o recalque não  é a simples repressão, é o envenenamento, é o miasma que o menino terá que  carregar para sempre sem poder dizer nada.

Outro exemplo, nos ajuda a entender melhor ainda. A repressão está na ordem dada pelo pai, em outra cena, de que todos irão para a cama sem comer. O recalque, no entanto,  como teia finíssima, surge na chantagem emocional do pai, especialista  sacerdote da moral, em promover sentimento de culpa. Afinal que, informa os  filhos, todos irão para a cama sentindo-se muito mal pelo que eles fizeram. E o  que fizeram? Ora, nada demais, apenas demoraram a chegar para jantar. As  crianças terão que passar a vida com aquela introjeção de que fizeram mal ao  pai porque não agiram como ele queria. Pais invasivos e  autovitimados são  sacerdotes da moral muito espertos.

A repressão é da ordem de uma lei falada. É aquilo que se pode entender de um grito, de uma violência declarada, mas não da parte fina da violência, do seu miasma indizível, da sombra que fica por trás da letra. O recalque é o resto,  o resquício do que, de um grito, de um soco, de um espancamento, de um  assassinato, não pode ser compreendido, não porque não se entenda a sua fonte,  mas porque seu efeito venenoso é contínuo no tempo. Não se trata, no entanto,  de um efeito simbólico, mas de um efeito antissimbólico, justamente aquele que  proíbe a constituição de relações.

No filme, o recalque é a lógica contínua da destruição e da autodestruição que une pessoas em família, justamente enquanto as desune. Não é à toa que o filme se passa no instante anterior à eclosão da primeira guerra mundial. Não é à toa que o  narrador ligará aos fatos estranhos ocorridos durante o século na Alemanha,  local onde a flor doentia do nazismo pode desabrochar em toda a sua exuberância  demencial.  Tudo começa na família, a mais criticada das instituições e que, no entanto, não conheceu até agora a autocrítica.

 

 


Marcia Tiburi é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia pela  UFRGS. Publicou diversos livros de filosofia, entre eles “As Mulheres e a  Filosofia” (Ed. Unisinos, 2002), “Mulheres, Filosofia ou Coisas do Gênero”  (EDUNISC, 2008), “Filosofia em Comum” (Ed. Record, 2008), “Filosofia Brincante”  (Record, 2010, indicado ao Jabuti em 2011), “Olho de Vidro” (Record 2011) e  “Filosofia Pop” (Ed. Bregantini, 2011). Publicou os romances Magnólia (2005,  indicado ao Jabuti em 2006), A Mulher de Costas (2006) e O Manto (2009) da  chamada Trilogia Íntima. Em 2012 lançou seu quarto romance “Era meu esse Rosto”  (Record). É professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e  História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da revista Cult.

Site: www.marciatiburi.com.br

blog: http://filosofiacinza.wordpress.com/

 

 

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