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NÃO AMARÁS por Elza Tamas

 

As novas  gerações atravessaram a barreira da sexualidade, mas estabeleceram  outras fronteiras para o proibido.  O jovem pode ficar na balada com mais de uma  pessoa, beijar e ter intimidades físicas  de toda ordem.  As interdições agora são outras.
Meninas aprenderam a rejeitar antes de serem  rejeitadas. Preferem nem correr o risco de dar o telefone à cair na angústia  da espera do dia seguinte. Pra que? Eu sei que  ele não vai ligar mesmo… No caso dele, mesmo que esteja super afim de  ligar tem que esperar uns dois, três dias, senão parece que está desesperado ou pegando no pé.
O jogo da imagem tem prevalência sobre a expressão do afeto e  este pode acabar tão reprimido, que quando se quer  encontrá-lo,  anestesiado,  ele  já não responde.   Não se  consegue acessar mais o que se sente.
Homens e mulheres adultos  imaturos  também  têm dificuldades em demonstrar seu desejo pelo outro, porque “pega mal”; temem o compromisso e o envolvimento.  O desejo é muito mais investido na imagem,  em como se  é percebido, no status social que uma certa companhia oferece,  do que no prazer da própria experiência. A própria terminologia vigente já denuncia o que é valorizado: “pegou quantas?”.   A satisfação é de cunho  narcísico, dissociada do  contato com o próprio corpo.
A independência  afetiva  e a auto suficiência estão no topo da nova lista de necessidades, encobrindo  o medo contemporâneo de se sentir dispensável.  Contra a dor da rejeição aparece a equivocada tentativa de blindar o sentimento.

Nos pensamos livres, mas  estamos seduzidos pela velocidade do mundo e suas  ofertas.  Tudo rápido, superficial e descartável. Acreditamos que, se escolhermos e nos  comprometermos  aqui,  podemos perder uma possibilidade muito melhor ali adiante. E sofremos, porque nesta dinâmica em que o bom está lá na frente, não existe preenchimento e bem estar, só voracidade e ansiedade.
Talvez muito das patologias atuais  se expliquem por aí. Curiosamente a tentativa de saná-las opera dentro do mesmo desvio:  rápido!, um remédio que  me ajude a sair desta. Perde-se a diversidade  da experiência humana,  seus  tons e relevos e qualquer coisa que não seja do âmbito da expansão e da alegria passa a ser vivido como  intolerável; blues só na música e olhe lá.

Amar é perigoso, pode machucar. Requer audácia e demanda tempo: ver o outro, me reconhecer nele, me estranhar, estranhá-lo. É tão transgressor que está proibido.

 

foto banner: imagem do LIVRO VERMELHO de C.G. JUNG

 

 

 

Elza Tamas é psicologa e escritora. Idealizou e desenvolve este site.

 

 

 

foto : Mario Bock

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