mariana - bruno 2

QUANDO O PROIBIDO REVELA O INUSITADO: A Inquisição no Brasil por Bruno Feitler

 

Quando o proibido revela o inusitado   –  Inquisição, negros, índios e judaísmo do Rio de Janeiro colonial.

 

 

Os arquivos são sempre instigantes. Mesmo se na maioria das vezes depara-se com o deserto.  Não é incomum encontrarmos  resposta a uma velha interrogação, a certeza de uma teoria, e algumas vezes casos inusitados que nos colocam outras perguntas.
Dentre as mais de duzentas pessoas presas pela Inquisição no Rio de Janeiro por  judaísmo durante a primeira metade do século XVIII, encontramos dois casos bastante originais: Sebastião da Silva  e Maria Pequena não eram típicos cristãos-novos, os  descendentes dos judeus convertidos à força em Portugal em 1497, e principal alvo da Inquisição portuguesa.

Sebastião da Silva, preso no Rio de Janeiro em 1715, é dado como ¼ de cristão novo  e “alfaiate, escravo”. Não é nada raro encontrarmos cristãos-novos  julgados por judaísmo. Devido à perpetuação do preconceito,que de religioso tornou-se racial depois da conversão forçada,todo cristão-novo era suspeito de ser um péssimo católico.
Este preconceito se mantinha mesmo quando não se tratava de um “cristão-novo  inteiro”: um “meio cristão-novo”, alguém com “¼ de cristão-novo”, e até gente  com uma vaga “parte de cristão-novo” era suspeita, não importando a origem dos outros 3 avós.
Não foi incomum também , encontrarmos  pessoas julgadas por judaísmo que tivessem origem indígena, mas sobretudo negra.
Uma boa parte dos cristãos-novos do Rio  que  estava ligada à produção agrícola, como  senhores de engenho, plantadores de cana, mandioca, e como membros  daquela sociedade patriarcal descrita por Gilberto Freyre, não deixaram de se  amancebar e de fazer filhos com negras e mulatas, escravas ou libertas.

Fazenda de Duarte Rodrigues de Andrade, cristão novo, na região de São Gonçalo

Dos cerca de 48 mestiços presos no Rio por judaísmo, algo como 25 eram filhos ilegítimos. Ou seja, não havia nada de  incomum – era até habitual na região fluminense – cristãos-novos de origem  africana ou indígena. Seria Sebastião uma exceção?

Outro caso inusitado, é o de Maria Pequena, ou Mariana, presa também por judaísmo no Rio de Janeiro poucos anos antes que Sebastião. Assim que chegou aos cárceres da  Inquisição, em novembro de 1712, ela confessou ter judaizado com várias  pessoas, sendo que aprendera tais práticas e crenças havia vinte anos com um  certo Antonio da Costa, mercador já então falecido com quem “andava em trato  ilícito”.  O detalhe instigante é que Mariana era uma negra forra, nascida em  Angola por volta de 1670, batizada em Luanda, e que teria, segundo os  testemunhos recolhidos contra ela, caído em heresia ainda na condição de  escrava, por influência de seus senhores, Diogo Bernal e Maria de Andrade. Ela  foi alforriada em algum momento entre 1704 e 1711, e continuou, depois de  liberta, tendo contatos com vários cristãos-novos judaizantes. No processo,  escrito na linguagem asseptizada e objetiva da Inquisição portuguesa, ninguém se  espanta com a situação, nem os denunciantes nem os inquisidores.

excertos do processo de Maria Pequena, sessão de genealogia

Como explicar  esta normalidade, quando se conhece a atenção que os inquisidores prestavam à  origem étnica das pessoas denunciadas por judaísmo?
A Inquisição portuguesa foi fundada em 1536 e nunca teve um tribunal no Brasil: as pessoas presas na colônia eram levadas para o Reino julgadas pelo tribunal de Lisboa.
Foram presas deste lado do Atlântico pouco mais de mil pessoas entre 1546 e  1822, a grande maioria por judaísmo. Para além do grupo do Rio, no século XVIII  também houve um importante numero de prisões em regiões como as Minas e a Paraíba.

 

Uma versão mais ampla deste texto pode ser lido em: http://docvirt.com/docreader.net/docreader.aspx?bib=DEVARIM&pasta=Ano+07+-+n%BA+17+-+Abril+de+2012&pesq

 

foto banner: excertos do processo do  mandado de prisão de Maria Pequena 

 

 

Bruno Feitler é professor de História Moderna da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e autor, entre outros, do livro Nas malhas da consciência. Igreja e Inquisição no Brasil. São Paulo: Alameda/ Phoebus, 2007.

Comentários