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TRANSGRESSÕES NAS FENDAS CITADINAS por Belkis Trench e Laerte Coaracy

 

Caim, depois de esconder o corpo de seu irmão do Senhor, saiu pelo mundo a fundar cidades. Os prefeitos  e empreiteiros, seus sucessores, empenham-se a asfaltar e cimentar esse mundo todo.


Na geometria das ruas, na precisão dos jardins, nos planos das praças que captam  franca luz, materializa-se um ideal de razão, de escolha e de controle. 
Então, num tempo de outras  paciências, vai-se notando aqui e lá,  pelas fendas, rachas e desvãos da  pele da cidade, a eclosão reiterada de plantinhas em pé de muro, sarjeta  desbeiçada, parede escalavrada, brecha de calçada, parapeito obtuso de  viaduto. É entre as rugas que dá de tudo.

 

Toda fenda, furo ou rego é  oportunidade de instalação de uma sementinha  diminuta, que dá um brotinho milimétrico,  proliferando em seguida num jardinzinho polegar.

 

Essa flora modesta, destinada a passar despercebida, resiste aos múltiplos paradoxos  do urbano, que vão da integridade higiênica à violenta degradação. A cidade com seus ratos, pombos e homens, mas com tufos de capim rebeldes também. Só as  enxergamos, essas verdes trogloditas, ao sabor do acaso e da atenção  despreconcebida. As cidades são cruéis,  mas nesse salpicado apelo verde, afirmada  imagem do Eros, a natureza da vida se confirma.

 

 

 

 

 


Laerte Coaracy 
nasceu em São  Paulo em 1943 e passou a  infância entre a Urca e Paqueta. Professor concursado da Universidade do  Chile durante o governo da Unidade Popular. Depois do assassinato de Allende, acabou indo trabalhar na França onde é psicanalista há muitos anos.

 

Belkis Trench é doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo , pesquisadora do Instituto de  Saúde e trabalha com pesquisas  fotoetnográficas. É co-diretora do documentário Coisa dos Homens e organizadora dos livros,  Almanaque Zero e Nós e os Outros.

 

 

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