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ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO: ARTE REPARAÇÃO por Laura Villares de Freitas

 

Viver é muito bom, mas nem sempre é fácil. São necessários outros, pessoas que nos confirmem. Quando a história de vida não nos comporta satisfatoriamente, passamos a depender mais de recursos diferentes. Recolhemos, recortamos de nosso meio, nosso entorno, tudo o que possa nos trazer um sentido, nos nutrir de uma presença, nos confirmar como alguém nesse mundo. Dá-se também o sentido inverso: interferimos no que estiver ao nosso alcance, impingindo-lhe um nome, uma ordem, uma função, marcando nosso espaço. Somos frutos de nossa cultura e, simultaneamente seus agentes, coautores que colaboram com novos elementos e arranjos, mantendo-a dinâmica e viva.

Mesmo em casos  considerados extremos, quando a noção da realidade é tênue, em que se decide por afastar a pessoa do convívio usual e em que há fabulação e/ou alteração das percepções, a busca de um eu que tenha um sentido para sua vida permanece.

Essa foi uma das descobertas de Carl G. Jung (1875-1961), que começou sua carreira profissional num hospital psiquiátrico na Suiça, pouco mais de cem anos atrás. Ali buscava  contato humano genuíno com seus pacientes e percebeu que o sentido da vida é  algo buscado, construído, desconstruído e reconstruído, numa dinâmica incessante  ao longo da vida. É o processo de individuação, que se dá, em grande parte,  graças a uma disposição natural e inata em cada um de nós: a capacidade de
equilibração, busca constante e dinâmica da homeostase, auto-regulação, para a  qual concorrem tambem componentes pessoais e impessoais, relações afetivas, fatores do ambiente, da biografia, e elementos da cultura.

Nise da Silveira  (1905-1999), psiquiatra brasileira, montou ateliês de pintura, desenho, modelagem, marcenaria e costura no hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Oferecia aos pacientes recursos para uma expressão livre. Os  trabalhos ali realizados comoveram e transformaram vidas. Algumas de suas obras são hoje consideradas arte e alguns pacientes, artistas. Junto aos ateliês terapêuticos, inaugurou-se ali um museu, o Museu do Inconsciente.

Arthur Bispo do  Rosário (19011-1989), sergipano, filho de escravos, ex-lutador de box e ex-marinheiro, acabou se mudando para o Rio de Janeiro. Perto dos 30 anos, sofreu grande crise e acabou sendo internado, com diagnóstico de esquizofrenia. Teve algumas passagens pelo Engenho de Dentro, mas passou mais de 50 anos ali perto, internado na Colonia Juliano Moreira, em Jacarepaguá.

Na falta de um  ambiente favorável e de outros que compareçam significativamente, a capacidade auto-regulatória da psique, expressa no impulso para a individuação, encontra apoio em elementos da cultura.

bispo do rosário

A arte tem enorme capacidade para acolher e promover tal processo. Permite o fluxo criativo entre a impressão e a expressão, entre autor e interlocutor. Manipula materiais e emoções, disparando processos que os transformam. E o produto final é uma obra que pode ser reconhecida como de valor e confere um lugar de pertinência a seu criador. Arthur Bispo montou seu próprio “ateliê” na cela em que ficou confinado por 7 anos dentro do hospital psiquiátrico. Dizia cumprir ordens superiores e divinas, que se  manifestavam numa voz interior, e ter uma missão especial: a de construir o  mundo em miniatura.

Aproveitava sucatas do hospital, desfazia lençois e uniformes para ter fios com que tecer, recolhia objetos descartados. Criava a partir de elementos do cotidiano, organizando listas, catalogando objetos, nomeando e redimensionando aspectos do dia a dia.
Nomeava e enumerava as pessoas que lhe eram significativas.

Fez pinturas, desenhos, bordados, assemblages de objetos e de palavras, “vitrines”. Como um peculiar arquivista, organizava o caos. Desconstruia e construia objetos e classificações, adotava novas perspectivas de olhar e criava diferentes hierarquias. Com isso era simultaneamente criador e criatura.

Bordava frente e verso, sabendo que o ser humano é tridimensional, tem memória, inconsciente, consciência e persona.

Alguns de seus trabalhos são didáticos, informando sobre os esportes, a geografia do mundo, as festas religiosas do Brasil. A maioria deles parece buscar um interlocutor que desconhece as coisas deste mundo.

 Classifica e organiza o mundo humano para que ele se torne inteligível, inclusive pela divindade. Costurou seu “Manto da  Apresentação”, para usar no dia do Juízo Final. No avesso, bordou os nomes de todas as pessoas de sua vida; no lado direito, seus principais signos e   símbolos. Dizia que sua missão seria apresentar a existência da Terra ao plano divino, e para isso trabalhou a vida toda.

        

Buscava atingir a divindade, mas sabia da importância pessoal de seu trabalho. Recusava o título de artista. Em vida, permitiu apenas uma exposição, no MAM do Rio em 1982, mas a ela não compareceu. “Estão dizendo que isso que eu faço é arte. Quem fala não  sabe de nada. Isso é a minha salvação na terra.” (“De Lá para Cá”, tvBrasil, 2011)

Foi postumamente reconhecido como grande artista, tendo hoje a obra exposta no Brasil e no  exterior. Criou-se o Museu Arthur Bispo do Rosário.

Simultaneamente artista de uma época e homem que buscou seu sentido pessoal de vida na expressão artistica, Arthur Bispo nos mostra como a arte é recurso com enorme potencial para colaborar com a autoequilibração psíquica.

Laura Villares de Freitas é psicóloga clínica, analista junguiana; trabalha em consultório há mais  de 30 anos. É também professora no Instituto de Psicologia na USP, onde orienta
teses e outros trabalhos, além de dar aulas. Gosta muito de arte e da natureza.
Tambem coordena grupos vivenciais e faz palestras. Publicou artigos e capítulos
de livros sobre a psicologia junguiana, trabalhos em grupos, psicoterapia,
sonhos e mitos vistos de um ângulo psicológico.

Contato: [email protected] ou [email protected]

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