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O QUE QUEREMOS DA MÚSICA por Gabriela Pelosi

É de senso comum que  ela  transforma o nosso estado afetivo. Que tem o poder de nos deixar mais energizados, românticos, contemplativos, ou de expressar o indizível. Desde Platão até os dias de hoje, inúmeras são as explicações para a relação que temos com aqueles sons a que chamamos música.

Mas o que tem esta arte que nos atrai como os meninos e meninas hipnotizados do conto alemão “O Flautista de Hamelin”? Uma possível resposta, evidenciada recentemente por estudos na área da neurociência musical, é o fato de que a música  geralmente  atende às  nossas  expectativas- mesmo que de maneira inconsciente- e nós seres humanos adoramos isso.

Sabe aquela sensação de que quanto mais ouvimos uma música mais  gostamos dela e mais queremos ouvi-la? Uma das razões é o fato de possuirmos um  sistema neurológico que aprendeu a antecipar o que está para acontecer e que se  diverte fazendo isso o tempo todo; seja uma linha melódica interessante, a  entrada do trompete na parte B ou um final apoteótico. Embora este fenômeno  seja mais acentuado e perceptível nas músicas que conhecemos bem, acontece quase  o tempo todo, e isso se deve ao fato de que a esmagadora maioria das músicas  que nós ocidentais ouvimos fazem parte de um mesmo sistema, o chamado tonalismo  ou música tonal.

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Neste sistema, desenvolvido durante séculos, existe um princípio básico de tensão e relaxamento. Primeiro ouvimos um som estável, depois outro tenso, seguido de um suspensivo, voltamos ao relaxamento e assim por diante. Ou seja, a tensão existe na música, porém sabemos que será resolvida em seguida e por isso apreciamos estes momentos ainda mais. Nós também gostamos de ser surpreendidos de vez em quando- mas não muito- e o bom compositor é justamente aquele que consegue alcançar o equilíbrio, prendendo a atenção do ouvinte ao jogar artisticamente com as regras do sistema.

Mas será que ter sempre as expectativas atendidas é bom para nós? E o empobrecimento da música que ouvimos nos meios de comunicação, é causa ou efeito deste medo de sair da zona de conforto?
Por mais que seja gostoso sentir-se no controle da situação, é  saudável nos arriscarmos. À medida que nos acostumamos com as pequenas  frustrações que estilos e linguagens musicais diferentes dos quais estamos
acostumados nos proporcionam, tomamos gosto pelo desconhecido, pela aventura.
Tais experiências tornam ainda mais prazerosas as audições das músicas conhecidas  há tempos. É como voltar para casa depois de uma viagem surpreendente.

Quer experimentar? Ai vão duas sugestões: o compositor John Adams e as Vozes Búlgaras.

 

 

Gabriela Pelosi é paulistana, musicoterapeuta e musicista.
Acredita imensamente no potencial da música para o desenvolvimento humano e com certeza seguiria  o flautista de Hamelin.

 

 

 

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