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AFORISMOS por Juliano Garcia Pessanha

 

1.

Na escuridão gelada de Helsinque, uma gaivota cruzou o céu e saudou minha cabeça e, no Chile, vi um ramalhete de flores nascendo entre os trilhos do trem… Descobri então, que viajar é aumentar o desconhecido e, um dia, atravessado por tantos lugares e povoado por tantos países, uma palavra surge, como uma gaivota, saindo do peito-portal.

 

2.

No dia em que a malha vermelha pinicou a pele e corri suado rente ao cipreste – queria ter morrido ali! Embora só muitos anos depois eu tenha escutado que o âmbar é a resina dos pinheiros depositada no fundo do oceano, foi ali, enfiado na malha vermelha, que estremeci pela primeira vez ao olhar a gosma alaranjada num toco de lenha. Queria ter morrido ali, olhando para o chão. Queria ter morrido ali, na respiração do odor inédito e, amparado pela obscuridade, teria poupado minha vida da infelicidade do conceito.

                                                             

foto banner: Frantic- Francesco Calvetti


Juliano Garcia Pessanha é escritor e ensaísta. Publicou a trilogia Sabedoria do nunca (1999), Ignorância do sempre (2000), Certeza do agora (2002) além de Instabilidade perpétua (2009), todos  pela  Ateliê Editorial. Vencedor do prêmio Nascente, promovido pela Abril e USP, nas categorias poesia e ficção, graduou-se em filosofia na USP, onde atualmente desenvolve sua pesquisa de doutorado.

 

 

 

 

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