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LOVE ADDICTION por Marilene Damaso

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“Eu preciso respirar o mesmo ar que te rodeia e na pele quero ter o mesmo ar que te bronzeia…” O que me afeta? É que ele não chegue agora. É não saber onde ele está. É pensar que ele possa dançar com outra ou mesmo apenas lançar um olhar para outra, mas principalmente que ele desvie o olhar de mim. O sofrimento no território do amor é uma constante. Não há dúvida de que onde está o amor está a dor, não só para rimar, mas para traduzir um enlaçamento paradoxal entre os dois sentimentos, nesta importante dimensão da vida humana.

Na paixão o objeto de amor tem que estar amalgamado ao peito do sujeito num sonho de unidade e completude. Assim ele fortalece a identidade e resignifica a vida. Mas quando alguma distância se impõe entre o eu e o amado, o eixo central do amante estremece, o sofrimento se instala, e a única saída para o apaixonado é correr atrás de seu par como uma droga. Similar a qualquer vício, a abstinência do “outro-droga” não é tolerada. Ainda que gere decepções inevitáveis, a paixão é acolhida por nós como melhor representante do amor romântico, respeitamos a paixão com todo pathos que lhe pertence e todo paradoxo que este estado carrega.

 

Na atualidade, observamos a presença recorrente de outras formas de amor nas quais habitam uma dimensão adicta, cuja manifestação é diferente da paixão. Será que podemos pensar em outras formas de love addiction além da paixão?   O fenômeno adicto diz respeito a  necessidade do individuo  de se apoiar em algum objeto para  existir, perdendo a autonomia e sem possibilidade de escolha. Seguem duas formas diferentes de relações amorosas, ambas ligadas ao campo das dependências:

Primeiro, o fenômeno atual do “ficar”, observado nos jovens, implica numa troca recorrente de parceiros, movida pela busca da sensação de prazer no plano afetivo e/ou sexual. Alguns desses jovens buscam um percurso amoroso baseado na intensidade das emoções que o encontro promove. Quando os fortes sentimentos não se repetem, há uma rápida troca de parceiro. No lugar do desenvolvimento da intimidade está a busca de excitação própria do estágio inicial das estórias de amor. O comportamento adicto tem como objeto de apoio a própria sensação intensa de estar amando e o vício parece dirigir-se para a excitabilidade que a relação amorosa pode gerar.

A dependência nesta perspectiva é do estado amoroso, são indivíduos viciados em amar com intensidade. Aquilo que me afeta é o tédio da minha vida, eu preciso das emoções inebriantes que os meus amores me dão.  Paradoxalmente há um sofrimento do sujeito, que vive uma incansável busca em manter esse amor excitante nas veias. A meta, então, é tolerar o inevitável sentimento da “falta” que produz dor psíquica. A internet e as redes sociais da atualidade servem de palco para o exercício deste tipo de ligação com o outro, que pode ser virtual para o fim que se destina.

Neste tipo de ligação, o amar “até que a morte nos separe” está completamente fora de moda, ocupa este lugar o amor imprevisível, as noites avulsas e intensas, as relações de amor que escoam fluidamente e não ganham contornos definidos. O ideal para este tipo de amor fugaz é que o ciúme seja abolido, mas nem sempre isto acontece.   Enfim, são relacionamentos próprios dos nossos tempos, marcados pela fragilidade dos laços humanos, pela rapidez e urgência que afastam as relações de longo prazo, construídas com solidez e compromisso.

Num segundo tipo de love addiction observamos um comportamento repetitivo e descontrolado de atenção e cuidados do amante dirigidos ao parceiro, junto à negligência relacionada aos cuidados e a atenção a si mesmo. Agrada o parceiro para receber amor e consideração, também para evitar sentimentos de desqualificação ou mais nitidamente de rejeição. Um tipo de relacionamento gerador de ansiedade, decepções, depressão, enfim de profunda dor psíquica.  Apesar do sofrimento que acompanha este tipo de amante, e as evidências de que o relacionamento está sendo prejudicial a sua vida, ele persiste em mantê-lo. Neste quadro a autonomia do amante cede lugar para um aprisionamento ao objeto de amor.

Amor, ou o desejo de controlar o parceiro para mantê-lo perto e imobilizado? Ou apenas uma dependência deste “outro-droga” que é apoio para minha existência? Não está em jogo aqui a intensidade do amor, mas a persistência em manter o relacionamento apesar do sofrimento que ele imprime, mas que  constitui uma âncora para o viver. Aqui, aquilo que me afeta é sentir que apesar de tudo que eu faço ele não me retribui. Sei que ele não me quer, mas não tenho pernas para seguir sozinha. A individualidade, típica dos tempos modernos, caracterizada pelo narcisismo, não encontra espaço neste tipo de relacionamento. A possibilidade de escolha, própria do sujeito, se apaga em nome do apego excessivo ao parceiro.

Os tipos de love addiction na contemporaneidade expressam nossa fragilidade e solidão. Em tempos de vazio e tédio as emoções intensas do amor podem se tornar um vício, um excitante para servir de apoio ao existir. Também o risco de perder o objeto de amor na atualidade é grande, a ética amorosa do amor romântico está sendo rompida cada vez mais, e os enlaçamentos amorosos são feitos com tecidos esgarçados. Frente a este cenário resta ao frágil ego se agarrar a um amor “para chamar de meu”, mesmo que aí morra o sujeito aprisionado. “Porque você não cola em mim? Tô me sentindo muito sozinho…”.

 

foto banner: Elza Tamas
foto 1: Akitoshi Sasakura
foto 3:  Gravura Laura Salgado

 

 

 Marilene Damaso de Oliveira é  psicóloga clínica e  psicoterapeuta junguiana. Estudiosa da psicanálise é mestre em Psicologia da Saúde. Especializada em transtornos da alimentação e dependências comportamentais ministra cursos nestas áreas e publicou artigos sobre estes temas em revistas especializadas.  Atualmente   pesquisa o tema do  amor adicto.

 

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