VENUS cruzando a face do sol

2012 – DAQUI POR DIANTE por Amâncio Friaça

 

 

Amplificar a voz dos que gritam implica tornar inaudível a voz dos que
tem algo a dizer. Esse mecanismo das mídias contemporâneas, revelado
pelos estudos de Marshall McLuhan, está presente na propagação dos mitos
nazistas  pelo ministério de Goebbels, nas peças de propaganda ao leste e ao
oeste durante a guerra fria, na submissão do jornalismo ao entretenimento, na
fabricação do consenso contra Belo Monte, e do fenômeno 2012.
O que foi abafado pela amplificação da gritaria da indústria do espetáculo
(por exemplo, o filme “2012”)e da indústria do esoterismo (“Calendário Maia” etc.)?

Vênus, de deusa ao diabo

Os maias tinham um calendário bastante preciso, fruto de uma astronomia
e matemática sofisticadas.

calendario maia

O cômputo do tempo dos maias se baseava fortemente nas observações de Sol e Vênus.
Isso não é único dessa civilização. Na Mesopotâmia, as observações de Vênus
são centrais para as cosmologias que sumérios e babilônios desenvolveram.
Vênus é o planeta mais brilhante visto da Terra. É resplandecente quando visto
após o por do Sol (quando é chamada de Estrela Vespertina) ou antes do
nascer do Sol (Estrela Matutina).

 

Pode-se dizer que foram as observações de Vênus que impulsionaram os
primórdios da astronomia. E há duas coincidências felizes em relação à
Vênus para os primeiros astrônomos: a órbita de Vênus é a mais circular
dos planetas do Sistema Solar; o período entre as conjunções Vênus-Sol,
que correspondem ao ciclo Estrela Vespertina- Estrela Matutina, é
584 dias, ou, muito aproximadamente, 1,6 anos. A quase-circularidade da
órbita de Vênus torna mais regular qualquer cálculo de tempo baseado em
observações de Vênus. E o ciclo de 1,6 anos corresponde à razão 8:5.
Ou seja, em 8 anos há 5 ciclos de Vênus vespertina ou matutina, que
desenham o Pentáculo, a estrela de cinco pontas no céu, que passou a ser
o emblema de Vênus. Tradições posteriores, seguindo a lógica de transformar
deuses das civilizações anteriores em demônios, converteram a deusas Vênus,
Innana, Ishtar ou Astarte em Lúcifer, que, aliás, é o nome grego do planeta
Vênus, significando apropriadamente “portador da luz”.
E o Pentáculo foi transformado no símbolo do diabo.

Trânsitos de Vênus

Mas, afinal, o que se abafou em relação a 2012? Voltando ao ciclo
Vênus-Sol. O período de 584 dias é o intervalo entre conjunções do
mesmo tipo, pois há dois tipos de conjunção, a inferior em que Vênus
fica entre o Sol e a Terra, e a superior, em que Vênus passa atrás do Sol.
Se a órbita de Vênus estivesse no mesmo plano que a órbita da Terra,
em toda conjunção inferior, Vênus passaria na frente do disco e seria
visto como um ponto escuro. Isto é chamado um trânsito. A duração
de um trânsito é poucas horas, e, assim para ser observado, temos que
estar no hemisfério certo da Terra. Acontece que Vênus tem uma órbita
inclinada em 3,4° em relação à da Terra, e normalmente passa sob
ou sobre o Sol no céu na conjunção inferior. Essa conjunção normal tem
o período de 1,6 anos. Contudo, o trânsito é um evento muito mais raro,
separados por mais de 100 anos entre si. Tão raro que não houve nenhum
no século XX. E, quando eles ocorrem, em geral são em duplas, separados
por oito anos, conforme a razão 8:5 mencionada acima. E no século XXI,
houve um par desses trânsitos, um em 8 de junho de 2004, e outro em 6 de
junho de 2012. Este foi o grande evento de 2012!

Como era de se esperar, a mídia se calou sobre o que era significativo,
o trânsito, e continuou repetindo à exaustão a historinha do fim do mundo em
2012. Marshall McLuhan explica. Para que se tenha uma idéia da raridade do
evento, houve somente apenas oito desses eventos desde a invenção do
telescópio, em 1631, 1639, 1761, 1769, 1874, 1882, 2004 e em 2012.
E o que aconteceu que marcou 2012? Em 22 de maio de 2012, o foguete
Falcon 9, da empresa SpaceX, partiu de Cabo Canaveral
no primeiro voo orbital privado,transportando a cápsula Dragon para
reabastecer a ISS (Estação Internacional Espacial).
O lançamento bem sucedido foi saudado como um marco histórico na
exploração do espaço, pois a utilização de naves privadas irá reduzir o custo
do transporte para fora da Terra. Foi dado mais um “passo para libertar
o homem de sua prisão na terra”. Essa citação de um repórter americano
por ocasião do lançamento do Sputnik encontra-se no segundo parágrafo
do A Condição Humana de Hanna Arendt. A filósofa ilustra com essa fala
o profundo significado do evento da saída da humanidade ao espaço que
“em importância ultrapassa todos os outros.”

Por mais outra feliz coincidência, em 2004, foi dado outro “passo para
libertar o homem de sua prisão na terra”. O avião-foguete SpaceShipOne,
projetado por Burt Rutan, e financiado por Burt Allen, o co-fundador da
Microsoft, ganhou o Ansari X Prize, por ser a primeira espaçonave reutilizável
lançando-se ao espaço em voo sub-orbital. O prêmio foi concedido em 4 de
outubro de 2004, data de lançamento do Sputnik 1. De volta a 2012, neste ano
a Planetary Resources Inc.anunciou seus planos de mineração de asteróides
próximos da Terra em busca de metais do grupo da platina. Seu co-fundador,
Peter Diamondis, tem promovido o turismo espacial através de sua empresa
Virgin Galactic, ainda em fase de testes. Desse modo, os acontecimentos
se encaminham para concretizar a profecia do pioneiro russo das viagens espaciais:
“A Terra é o berço da humanidade, mas ninguém vive no seu berço para sempre.”

 


Amâncio Friaça
 Astrofisico, professor livre-docente do Instituto
de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade
de São Paulo (IAG-USP). Pesquisador nas áreas de Evolução de
Galáxias, Cosmologia e Transdisciplinaridade e Astrobiologia.
É responsável pela disciplina de astrobiologia  “A Vida no
Contexto Cósmico”, oferecida pelo IAG-USP.

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