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AMNÉSIA E AS GUERRAS DO FIM DO MUNDO por Rachel Rosalen

“A crueldade é uma das formas da violência organizada.


Ela não é forçosamente erótica, mas ela pode derivar em direção
a outras formas da violência que a transgressão organiza. Como a
crueldade, o erotismo é pensado. A crueldade e o erotismo se
organizam no espírito que a resolução de ir além dos limites da
interdição possui.

Essa resolução não é geral, mas é sempre possível que ela se desloque
de um campo para outro: trata-se de campos vizinhos fundados um e
outro sobre a embriaguez de escapar do poder da interdição” (Bataille).

Acredito eu em fim do mundo? Mais que pensar o fim do mundo como um final dos tempos, fui pouco a pouco mergulhando nas reflexões que me levaram a produzir uma série de trabalhos.

O mal estar que produzem as guerras e a certeza de que não existe guerra, invasão, violência, crueldade ou matança que se justifique.

Mas também de que elas são recorrentes na história da humanidade como recurso último quando falta o diálogo, o respeito, a ética e a aceitação da diferença. Sem falar em ganância por poder e econômica, e em outras paixões humanas tristes. E aqui não poderia deixar de fazer referência a Mario Vargas Llosa, ao seu maravilhoso texto “A Guerra do Fim do Mundo”.

No livro, Vargas Llosa mescla personagens reais e fictícios perdidos em uma guerra no fim do mundo. Personagens estes destópicos em guerras dos mundos, facilmente atualizados na mediatização perversa e ficional dos meios de comunicação, que mesclam, como no texto de Llosa, ficção e realidade na criação de uma narrativa da vida cotidiana que se reescreve ao mesmo tempo em que é apagada e esquecida.

Ensaios Anti-Guerra

Realizei uma série de projetos “anti-guerra”, iniciada com Corpus Urbanus e seguida por Black Rain # an anti-war project, Ensaio sobre a crueldade ou
O encontro do Sr. Fatzer com a Rainha de Copas, # 07 Ensaios sobre a crueldade e Amnésia.


Corpus Urbanus trata da violência nas grandes cidades e a posição entre violação e violado.

Em Black Rain # an anti-war project, cento e quarenta arquivos de vídeo são distribuídos em quatros projeções ao longo de um corredor de 20 m de comprimento. Estes vídeos são controlados por sensores de presença acionáveis através do trânsito do público no espaço da instalação.

A paisagem sonora é produzida em tempo real a partir do improviso do violoncelo gravado para o trabalho. A relação entre imagem projetada, imagem refletida e o sujeito que ativa a imagem coloca três vetores de tensão no espaço, necessários para criar o que Eisenstein chamou de dinamização da matéria.

Black Rain utiliza imagens de documentais de Hiroshima, explosões, escrituras japonesas e de performances gravadas em estúdio com sete atores trabalhando sobre referências dos teatros clássicos japoneses, Noh e Kabuki. Em muitas destas peças as personagens morrem e não sabem que morreram e muitas vezes repetem infinitamente ações de quando estavam vivos. No caso de Black Rain, a guerra não oferece salvação e as personagens ajudam-se neste sofrimento. Há uma negação a aceitação do que lhes aconteceu que lhes atribui dignidade.

A distorção e o derretimento não aparecem nos corpos (tal qual o efeito das bombas nucleares) mas estão deslocados para o áudio da obra, resultante dos efeitos da intervenção de programação algorítmica que alteram o som triste do violoncelo

#07 Ensaios sobre a crueldade está baseado em um levantamento de imagens da mídia e na pesquisa sobre o núcleo patológico que gera esta violência – pura perversão, sede de poder e crueldade. Para tratar da estupidez e mesquinhez humana, foi escolhida a personagem Alice. Inspirada nos texto de Lewis Carrol, uma personagem feminina atravessa este cenário de guerra e discute as relações entre poder, mídiatização e banalização do mal e o imaginário que os sustentam.

Ensaio sobre a crueldade ou o encontro do Sr. Fatzer com a Rainha de Copas traz a discussão ao palco dando voz a estas personagens em um diálogo entre o Sr. Fazter (Brecht), A Rainha de Copas e a Alice (Lewis Carrol). É neste fictício encontro que a guerra é debatida. Aborda o espanto perante a crueldade e a perversidade do que se processa nestes períodos.

Um grande banco de imagens históricas sobre guerras de diferentes localizações geográficas, razões políticas, religiosas, étnicas, com um ponto em comum: todas sem razão ética – formam a matéria-base que vai sendo moldada através da navegação da Alice. Essa personagem, gravada em estúdio, leva o espectador a atravessar diferentes situações destes períodos de extrapolação, banalização e mediatização do mal.

Amnésia trata do apagamento da memória e da repetição incessante de imagens de guerra, que por mais diversas que sejam, trazem-nos de volta a antigas paisagens de destruição, colocando tais eventos em uma suspensão que assombra e retorna como fantasmagoria. Quanto mais retorna, mais se sobrepõe. Suspensas no tempo e no espaço, tais situações insistem e impregnam a retina.

Amnésia aborda os efeitos a longo prazo dos sistemas autoritários, traumáticos, repressivos e violentas situações contemporâneas que se constroem a partir da repetição. Através de uma narrativa não-linear, esse projeto desenha uma narrativa ficcional, cheia de labirintos e loops que descrevem essa situação perversa.

imagem 01, imagem 02, imagem 03  da obra Amnésia  ­- Rachel Rosalen
imagem 04 – # 07 Ensaios sobre a Crueldade – Rachel Rosalen / fotografia em estúdio Giacomo Favretto/ atriz Patricia Gordo
imagem 05 – Black Rain # an anti-war project – Rache l Rosalen / fotografia em estúdio Giacomo Favretto
imagem 06 – Ensaio sobre a crueldade ou o Encontro do Sr. Fatzer com a Rainha de Copas – foto de registro Gal Oppido
imagem 07 – Ensaio sobre a crueldade ou o Encontro do Sr. Fatzer com a Rainha de Copas – foto de registro Giacomo Favretto/ cantora Paula Pretta

Referências obras:

Amnésia >
Black Rain # an anti-war project >
# 07 Ensaios sobre a Crueldade >
Ensaio sobre a crueldade ou
O Encontro do Sr. Fatzer com a Rainha de Copas >
Corpus Urbanus >

Textos sobre os trabalhos

Texto curatorial da exposição individual Black Rain # an anti-war project
realizada no Instituto Tomie Ohtake por Agnaldo Farias.

Ensaio sobre a crueldade ou O encontro do Sr. Fatzer com a Rainha de Copas, de Arlindo Machado.

As poéticas do silêncio nos trabalhos de Rachel Rosalen por Priscila Arantes.

Texto critico de Priscila Arantes 

A produção de Rachel Rosalen está
baseada na construção de espaços
fazendo uso de múltiplas mídias e
conceitos de arquitetura, onde mescla
interfaces, programações, vídeos e
performances para realização de
vídeo instalações interativas e
performances de live-cinema.

A construção destes espaços envolve desde a direção de atores até a colaboração com músicos, engenheiros eletrônicos para o desenvolvimento econstrução de interfaces e programadores. Suas obras foram expostas em Tokyo, Yokohama, Paris, Zurich, Basel, Buenos Aires, São Paulo, Rio de Janeiro, Nápoles, Roma, Milão, Atlanta entre outros. Ganhadora de prêmios na área de Arte e Tecnologia e Artista em Residência na N&A pela Fundação Japão, Tokyo , YCAM – Yamaguchi Center for Arts and Media, Yamaguchi, Japão, Werkraum Warteck PP em Basel e no Bain :: Connective, Bruxelas. Desde 2007 trabalho em parceria com Rafael Marchetti.

www.rachelrosalen.com.br,

artista representada pela Light Cone, Paris.
foto retrato: Denise Andrade

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