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APOCALIPSE por Nestor Müller

 

 

 

A palavra apocalipse ligou-se, no transcurso de séculos, à ideia de cataclisma
cósmico e fim do mundo.  Com  efeito, coisas assim estão figuradas no texto
do  Apocalipse de João, último livro do Novo Testamento cristão. Lá
consta que  Deus haverá de transformar este mundo de lágrimas, através
de várias  e conturbadas etapas, de modo a abater os poderes do mal e
conduzir  os fiéis a  “novos céus e nova terra”.

durer - Apocalipse

Entretanto, o que sabemos hoje sobre o apocalipse pode nos abrir horizontes
bem  mais amplos. A pesquisa sobre os livros bíblicos e sobre toda a literatura
antiga  expandiu-se nas últimas décadas, inclusive com a descoberta de novos
manuscritos,  tais como os do Mar Morto e os de Nag Hamadi. Vou aqui
apresentar três aspectos  que podem ajudar o entendimento mais lúcido sobre
esse tema.

 

manuscritos mar morto

 

Em  primeiro lugar, o Apocalipse de João  faz parte de um vasto conjunto de
escritos  – a chamada literatura apocalíptica  – típicos em todo o Oriente
Médio,  desde o final do  século III a.C. até o  início do século II d.C.[1]
Todos eles são  “histórias  para tempos difíceis”, redigidos quando a
interpretação religiosa dos  acontecimentos tornou-se obscura, e a fidelidade
às crenças antigas foi posta  em xeque por novos conceitos. Todos assumem
uma linguagem  simbólica e uma  imaginação bizarra.

Características comuns desse gênero literário: sempre têm a forma de
revelações  (a palavra  grega apokálypsis significa  exatamente revelação
ou desvendamento)  dadas por Deus ou um  anjo a uma pessoa  entusiasmada
e visionaria. Tais revelações  ocorrem durante sonhos.  Relatam, em  termos
alegóricos, o drama das perseguições  sofridas pelos justos, a ocorrência de
uma catástrofe que põe fim a essa situação, e a  chegada de um novo mundo
de  paz e felicidade. Os textos não interpretam a realidade  presente
salientando  os deveres éticos, como o faziam os profetas, mas sim usando
metáforas,  arquétipos  e mitos que apontam para a destruição escatológica
e a  instauração de um mundo  novo. O conteúdo tende ao dualismo entre as
forças  cósmicas  do bem e do mal e  entre as duas eras universais, a antiga
que sucumbe  e a nova instaurada por  Deus. É frequente o uso da
numerologia  e a narração  de viagens aos planos celestiais.

Apocalipse - Boldeian Library

A  literatura apocalíptica expressa uma cosmovisão, uma mentalidade que
responde à  profunda crise vivenciada por alguns grupos religiosos do
Oriente  Médio, depois  da conquista de Alexandre da Macedônia e do
predomínio da  cultura helenística. Sem  forças para superar o jugo
estrangeiro, sem perspectivas  animadoras, eles  mantiveram sua
esperança mediante a imaginação de uma decisiva intervenção  divina
que rompesse as dificuldades concretas e trouxesse  uma vitória para
suas  antigas tradições. A mentalidade apocalíptica floresceu
especialmente em movimentos  sociais minoritários, tais como
os essênios ou  os mandeus.

Em  segundo lugar, o que chamamos de mentalidade apocalíptica parece,
de certo  modo, retornar em todos os tempos de crise severa[2].
Nesse sentido, podemos  reencontrar em nossos dias algumas daquelas
características, presentes em toda uma série de expressões de revelação,
canalização ou psicografia, ou então de  imaginação exacerbada. Por
exemplo, em obras de sabedoria esotérica que atualizam  fontes antigas.
Ou em manifestações de grupos que propagam visões, prenunciando
grandes calamidades futuras. Ou em filmes que mostram destruições
planetárias e  mundos paralelos. Ou em romances sobre seres
extraordinários como as sagas de “Senhor  dos Aneis”, “Harry Potter”
ou “Crepúsculo”. Todos possuem um certo elemento ou  tempero da
mentalidade apocalíptica.

O Senhor dos Aneis

Em  terceiro lugar, podemos interpretar todas essas manifestações, antigas ou
atuais, como sendo uma expressão de anseios, mais ou menos tenebrosos,
acerca  de mudanças que estão de fato ocorrendo. Elas projetam um desejo de
mudança,  comunicando temores diante do futuro e também a esperança de
liberação de  potenciais ainda desconhecidos, mas pressentidos.

No  caso dos povos antigos, dominados pelo helenismo e depois pelo
império romano,  eles viram suas ideias e seus ideais, suas leis e seus
hábitos, serem minados por  novas condições dentro das quais as crenças
antigas pareciam não fazer mais  sentido.

Atualmente estamos enfrentando mudanças rápidas, amplas  e profundas,
nunca antes registradas na  história humana, trazendo inovações
e impasses para todos  os setores da vida e  do conhecimento. Torna-se difícil,
mesmo para quem busca melhores  informações, formar uma visão de
conjunto  sobre as transformações em curso, as quais indicam claramente
novos  problemas, novos desafios e novas possibilidades, impensadas por
nossos ancestrais ou mesmo durante a juventude daqueles que hoje são mais
idosos.

Salvador Dali

Sabemos,  todos, que a vida humana daqui a algumas décadas será bastante
diferente da  atual. É natural que sintamos – mesmo aqueles que se esforçam
em estar sintonizados com as  mudanças e  buscar meios de intervir nos
acontecimentos – um medo enorme, difícil de ser  administrado. Torna-se
assim mais forte a tendência a se deixar levar pela  tremenda capacidade
humana de fabulação incontrolada, a via tortuosa de acreditar  em mudanças
terríveis operadas por algum poder desconhecido e  superior. Enfim,
refugiar-se em cenas imaginárias é uma projeção de esperanças,
mas também pode  ser um mecanismo de defesa que pouco
acrescenta à nossa vida real.

Muitos  sábios cristãos encontraram no Apocalipse  de João,
um chamado para o amadurecimento da fé e a renovação
espiritual, e  não apenas o vaticínio sobre a queda do Império Romano.
Creio que esses mestres  indicam o melhor caminho para acolhermos e
compreendermos as visões que hoje se  disseminam.


[1] Exemplos dessas obras são, na literatura judaica, os capítulos 53 a  74
do Livro de Baruc, os capítulos 9  a 12 do Quarto Livro de Esdras, os
capítulos 14 e 15 do Primeiro Livro de  Enoc, os capítulos 7 a 12 do
livro bíblico do profeta Daniel, e muitos outros textos. Na literatura cristã e
gnóstica são  conhecidos trechos do Pastor de Hermas,  o Apocalipse
de Pedro
,  e outras obras  tardias. Importantes paralelos persas são o
Bahman  Yasht, e o Arda Viraf, redigidos  na era sassânida, mas
conservando uma tradição oral muito antiga.

[2] Foi assim na Europa central, assustada com o poder dos califas
muçulmanos e com a ameaça de invasões normandas e búlgaras, que esperou
o final dos tempos com a chegada do ano 1000.

foto banner- Atilio  Avancini

 

Nestor Müller, mestre em filosofia pela UFSCar, gosta de longas caminhadas
e é professor na E. E. Otoniel Mota em Ribeirão Preto. Foi professor convidado
da  PUCSP e do Instituto Teológico Pio XI, em São Paulo.

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