olho grego 1

QUANDO DOIS DOMINGOS CAEM NO MESMO DIA por Flávia Reis

 

 

Marcharemos pela fronteira da hora. Qualquer direção é linha de frente.
Não adianta arrancar a farda humana, desertar da gente mesmo.
Esconder em porão, caverna.

Disseram que devemos seguir, não pensar nisso. Vigiando a sombra, vigiando
a sombra. É preciso vigiar a sombra. Quando estiver no meio de nós, no dia D,
não adianta ser da NASA.

A sensação tem prazo, a consciência, limite, a ciência tem fim. O mundo vai
acabar – eis aí outro nome para a morte. Pedirei a Carontes, o barqueiro,
que me deixe numa ilha. Soube que aceita a moeda em Real.

Estive há pouco apocalipseando, apocalipseando, as cartas de João – que não
é  Bidu, nem ninguém. Provocou nestes (últimos?) dias de existência, um
pecado  capital que me faria descascar cebolas, longe, no inferno, se o inferno
não estivesse  dentro de mim.

Advinha.

Feras, dragão coroado, sete trombetas, sete candelabros. Quatro cavaleiros,
estrela, mulher.

Na ilha de Patmos, meu bem, naquele fim de mundo, um escritor alcança a
estratosfera da boa linguagem. Ideias ideais, epifania ao menos uma vez
na vida.  Quem estivesse lá, em foco, na produção de escrituras, teria
passaporte para  outra  bíblia ou best seller.

Desejo estar em Patmos para o meu desfecho.  Encontrar o
final, o começo, escrevendo, escrevendo, por exemplo, sobre quando dois
domingos caem no mesmo dia, nos tornamos imortais – livro escrito
por dentro e por fora, selado com sete selos.

Dane-se a sombra.

 

 

Flávia Reis é escritora e sente inveja da
obra escrita pelo apóstolo João.

www.flaviareis.com

 

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