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MORROS E NASCENTES por Elidia Novaes

 

                                                                     Para Noemi

 

Calíope foi a musa da poesia épica, da ciência em geral e da eloquência. É a mais velha e sábia das musas, por vezes considerada sua rainha. 

 

Primeiro, pensei num homem que deixava as terras planas da Holanda e se mudava para Paraty, entre morros e nascentes. Até porque, na Holanda, as únicas montanhas são as russas. Morro? Só de tédio. E o homem resistia à revolta baixa de um país idem, e atendia quando alguém o chamava de Alemão.

Depois, me veio um mendigo que preferia caminhar pela faixa amarela das ruas, buscando evitar calçadas, semáforos e sarjetas. E para ter a sensação do sem-fim.

Surgiu a imagem de um supermercado lotado no horário de fechar. E uma mulher desesperada correndo por entre as gôndolas, que a iam cercando num labirinto, impedindo a passagem de seu carrinho. E ela desabalada em direção à fileira de caixas, com as compras nas mãos, debaixo dos braços e nos dentes. À sua volta, um coro cipriota, que não teve competência para ser grego.

Aí, apareceram dois cavalos: Relevante e Pertinente, cada qual mais garboso que o outro.

Ué, foi para isso que eu chamei a musa?

Toreador, en garde!

Ela disse que nunca mais. Deu-lhe as costas e saiu andando. Ele ficou parado por uns segundos e seguiu na direção oposta com ar incrédulo. Ela se virou a tempo de ver enquanto ele se afastava. Jogou fora o número de telefone e entrou cabisbaixa na estação de metrô. Nessa hora, ele olhou para trás novamente e já não a viu mais. Nunca mais.

Palavras começadas com J: juventude, janeiro, joia, janela, Juventus, já, jusqu-à.

Uma mulher é atropelada. Ouve o som de ossos quebrando. Atravessava a 23 de Maio e caiu entre a faixa 2 e a 3, quase chegando à Tutóia. O trânsito se congestionou e todos queriam ver sua cara, reduziam, paravam, tiravam foto, filmavam. Ali da faixa 4.

Um casal onde a esposa fosse a Rose e o marido tivesse o apelido de Feijão? A Rose e o Feijão?

Nessa hora, chamei Calíope de lado e lhe disse: “Pega leve, caramba! Ideias até vêm fácil; difícil é fazê-las ficarem paradinhas com tempo para a gente jogar o laço e se apossar!! Calma, meu”.

Não adiantou. Dois homens papeavam na padaria. Um deles disse que Fulana não está com ele pelo que ele é, mas pelo que pode oferecer a ela. Aí, contou que tinha pagado a moto em 36 meses.

Em minha mente, um lanço de tainhas. Primeiro, um espia fica no alto da pedra até ver um cardume. Centenas de tainhas prateadas, rebrilhando entre o sal e a maresia. Ele acena e indica o local. Duas canoas, cada qual com uma ponta da rede. Em cada uma, um camarada rema e o outro vai soltando a rede até as duas pontas chegarem à praia. Muita gente na areia. Todos puxando a rede, arrastando o cardume para o raso. Mas as tainhas são peixes tinhosos e pulam por cima da rede para o mar. Até que é uma briga justa.

A essa altura, já eram 6h30 e os ponteiros moviam-se acelerados, Junto com a minha respiração. Quase um quarto para as sete e nada de uma história consistente.

Um sujeito recebe um tiro no olho. A bala se aloja no cérebro e ele fica cego. A última imagem que guarda é a do atirador e o oco no cano da arma.

Do nada, um personagem chamado Elisabeth.

Calíope, você está de sacanagem comigo. Hablas francês? Slow down, cacete!

Um homem toma um bimotor com o caixão da mulher. O avião cai, ele morre e só restos do caixão são encontrados.

Mais dois personagens?! Robocóptero e Breikiven??

Palavras em pares talvez sejam mais fáceis de adestrar: erotismo sintético, travessa gulosa, locomotiva triangular. Não… suponho que não.

Italianos apaixonados por pudim de leite condensado.

A essa altura, minha mão escorregava de suor.  Espera um pouco! Eu anotava tudo em folhas de papel, no rótulo de uma caixa de fósforos, na palma da mão, guardanapos, na parede. Oh, caneta, isso é hora de falhar?!

Doeram. E lá ia ele de novo. Tinha abandonado as bolas de gude e o estilingue, e agora trazia uma torta que fazia sua mão parecer redonda e cremosa. Vinha erguida e apontando para ela, que achou melhor dar no pé, embora isso não estivesse coreografado. E ele atrás dela pelo picadeiro. Ela sentia um líquido quente escorrendo do supercílio. Até então, pensava que só boxeadores tinham supercílio, mas ainda podia ser suor… ou sangue. Melhor não ficar ali para descobrir, muito menos para conhecer o recheio da tal torta. Ela abanava os braços, pedindo socorro, enquanto subia a arquibancada. As crianças gritavam, mas não dava tempo de descobrir se de pavor ou riso. Seu figurino já se enganchava nas pernas e a maquiagem tinha se tornado um borrão, a peruca caía por cima de uma orelha e ela só tinha por defesa um girassol de lapela que espirrava água.

E pensei num homem que deixava as terras planas da Holanda.

                                   

 foto banner: David Hockney – Dwintertunnel

 

ELIDIA NOVAES

Escrevo, reviso, traduzo, às vezes ensino. Já geografei, já comuniquei, já pesquisei, já bailei, já florete-ei. Sou filha, tia, irmã e cunhada. E amiga, bem amiga. Adoro escrever, mas ainda não sou escritora. Talvez seja dramaturga, isso também está sub judice. Viajo menos do que mereço ou gostaria. Trabalho mais do que mereço, embora goste. E rio, sempre que possível; às vezes mesmo sem essa condição.
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