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O INÍCIO DO INÍCIO por Elza Tamas

 

Era leite, a vida bateu, bateu, virei manteiga. Isso foi ontem; agora nem sei mais do que sou feita. Uma única laranja ácida pode me azedar. Parece que muda, mas é igual.

Uma vela que acende outra vela, que acende outra vela, que acende outra vela. Uma sequência de containers colados um no outro, uma coisa depois da outra, e mais outra, como os pensamentos que sempre se sucedem, sem trégua, sem um lago calmo no meio deles, sem pouso. Tudo se repete e repete, limitado a apenas meia dúzia de respostas; meia dúzia de sulcos cravados na planície gelada e branca das nossas possibilidades. Meia dúzia de condicionamentos prontos a nos capturar; driblamos aqui, escapamos ali e sem nos darmos conta, escorregamos para a vala comum do automatismo.

Recomeçar ou repetir?

Escalamos mediocridades, empurrando morro acima pedras enormes, pesadas, densas como são os nossos medos e nossas esperanças. E nos exaurimos porque o esperado  nunca se cumpre, e do vazio do esforço não recompensado, vem o impulso de tentar novamente. 
É digno e maduro experimentar, aprender com o erro, ir em frente, dar a volta por cima. Mas só suportando a ambiguidade do momento presente com delicadeza, na experiência do tom que ele pode nos oferecer, sem buscar responsáveis pelos nossos desconfortos, sem acreditar em seguranças utópicas, e finalmente desistindo, mas desistindo até nos sentirmos enfastiados de tanto querer desistir, só assim, e só aí, é possível recomeçar.

 

foto banner: Walking on egg shells / Clic Chic

 

 

 

Elza Tamas idealizou e desenvolve este site.

 

 

 

 

 

 

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